O LIVRO

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sexta-feira, 17 de julho de 2015

POVOS INDÍGENAS NO BRASIL MIRIM





                                              Ilustração do jogo Aldeia Virtual criado especialmente para as crianças

De onde vem a palavra índio?

A palavra índio é fruto do engano dos primeiros colonizadores. Ao chegarem nas Américas, eles pensaram estar na Índia e então chamaram de índios os habitantes do continente!

No Brasil essa palavra é usada como sinônimo de indígena. Indígena quer dizer “aquele que é nativo e descendente dos povos originários de uma localidade”.
De onde vem a palavra índio?
A palavra índio é fruto do engano dos primeiros colonizadores. Ao chegarem nas Américas, eles pensaram estar na Índia e então chamaram de índios os habitantes do continente!

No Brasil essa palavra é usada como sinônimo de indígena. Indígena quer dizer “aquele que é nativo e descendente dos povos originários de uma localidade”.



Indios Kisedje, terra indígena Wawi (MT)
"Desde 1997 o portal do ISA tem um site sobre os Povos Indígenas no Brasil, que foi reestruturado em 2008. Pelos e-mails recebidos dos usuários do site, percebemos que muito dos acessos eram de crianças. Por conta disso, decidimos fazer um site especial para este público, ampliando assim o espaço web para pesquisa escolar", diz a coordenadora do programa Monitoramento de Áreas Protegidas e do tema Povos Indígenas no Brasil do ISA, Fany Ricardo.

Destinado à pesquisa escolar, o site Povos Indígenas no Brasil (PIB) Mirim mostra a diversidade cultural desse povos de forma didática e em linguagem acessível. Uma das formas encontradas pela equipe do ISA para despertar o interesse das crianças foi a criação da Aldeia Virtual - jogo online com referências reais sobre diferentes etnias com o qual eles podem interagir e se sentir parte daquele ambiente.

O site PIB Mirim conta com um conteúdo preparado especialmente para as crianças sobre as culturas dos povos indígenas no Brasil. Por meio de material destinado à pesquisa escolar, no qual temas centrais se desdobram em uma série de questões organizadas pela equipe do Instituto Socioambiental (ISA), e do espaço Aldeia Virtual - jogo online situado em uma aldeia circular no Cerrado brasileiro - pretende-se apresentar a diversidade de povos, romper com a idéia do "índio genérico" e despertar o interesse e o respeito das crianças às culturas indígenas existentes no Brasil. Tudo isso escrito em linguagem acessível para o público infanto-juvenil.

Aldeia Virtual

A Aldeia Virtual, realização do Instituto Socioambiental e da empresa de games 8D, é um espaço criado a partir de referências reais sobre alguns dos diferentes povos indígenas que vivem no Brasil. Ali, cada criança escolhe um entre os sete avatares de um povo (Ashaninka, Asurini do Xingu, Karajá, Krahô, Matis, Xikrin Kayapó e Yanomami) e passa a participar com ele das atividades da aldeia, podendo conversar e jogar com outros participantes. O jogo é livremente inspirado em referências dos povos - os Ashaninka não vivem em uma aldeia circular, nem os Yanomami vivem no Cerrado. Mas, nessa aldeia, todos se encontram, fazendo disso uma oportunidade divertida para trocar impressões dos diferentes modos de vida destes, e de outros, povos no Brasil.

Na Aldeia é possível, ainda, participar do jogo Corrida de Toras, atividade praticada por índios no Cerrado brasileiro. As toras geralmente são do tronco do Buriti, uma palmeira típica da região. Na corrida tradicional, os índios se dividem em dois grupos e cada grupo carrega uma tora. Quando alguém fica cansado, outra pessoa do grupo pega a tora no ombro. Esse revezamento acontece durante toda a corrida que termina geralmente no pátio central da aldeia. É uma atividade que diverte e desenvolve muitas habilidades.

Material para pesquisa escolar

Além da Aldeia Virtual, o PIB Mirim apresenta conteúdo destinado à pesquisa escolar com o objetivo de divulgar informações qualificadas sobre os povos indígenas. Dividido em cinco grandes temas (Antes de Cabral, Como vivem, Onde estão, Quem são e Línguas) o novo site aborda questões fundamentais para a compreensão dessa diversidade.

Os textos publicados podem servir de suporte, assim como o conteúdo já disponível no site Povos Indígenas no Brasil (pib.socioambiental.org), para professores levarem a temática indígena para a sala de aula, complementando o ensino, atualmente obrigatório em todo o País (Lei 11.645, 10/03/2008), de História e Cultura Indígena. [A alteração na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional traz a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena].

 ISA, Instituto Socioambiental.

Acesse o site http://www.dicionariotupiguarani.com.br/

domingo, 5 de julho de 2015

Nossa História - BRASIL NO OLHAR DOS VIAJANTES - "DEBRET"

Barbeiros ambulantes, aquarela, Jean Baptiste Debret, 1826


Jean-Baptiste Debret ou De Bret (Paris, 18 de abril de 1768 — Paris, 28 de junho de 1848) foi um pintor, desenhista e professor francês. Integrou a Missão Artística Francesa (1817), que fundou, no Rio de Janeiro, uma academia de Artes e Ofícios, mais tarde Academia Imperial de Belas Artes, onde lecionou em uma fazenda.

De volta à França (1831) publicou Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839), documentando aspectos da natureza, do homem e da sociedade brasileira no início do século XIX. Uma de suas obras serviu como base para definir as cores e formas geométricas da atual bandeira republicana, adotada em 19 de novembro de 1889.

Sobre a obra Viagem pitoresca e histórica ao Brasil:

Em Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, Debret revela sua profunda relação pessoal e emocional com o país, adquirida nos 15 anos em que ali viveu.
Jean-Baptiste Debret - gerreiro indígena a cavalo

Apesar de ter alegado motivos de saúde para retornar à França, há outras duas hipóteses para sua volta: deveria talvez querer o retorno para se reencontrar com familiares, além de organizar o primeiro volume de Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. Outra hipótese sugere que, como em 1831 tinha 63 anos, sua obra seria uma espécie de "trabalho para aposentadoria", visto que uma tal produção (almanaques de viajantes - livros com textos acompanhando imagens) fazia bastante sucesso no início do século XIX - quando Debret partiu para o Brasil - e poderia render uma boa aposentadoria (o que de qualquer forma não foi o que acabou acontecendo: quando da volta à França, esse tipo de publicação já não fazia o mesmo sucesso e a obra causou pouco impacto na França).

Debret tenta mostrar aos leitores - em especial europeus - um panorama que extrapolasse a simples visão de um país exótico e interessante apenas do ponto de vista da história natural. Mais do que isso, tentou criar uma obra histórica; mostrar com detalhes e minuciosos cuidados a formação - especialmente no sentido cultural - do povo e da nação brasileira; procurou resgatar particularidades do país e do povo, na tentativa de representar e preservar o passado do povo, não se limitando apenas a questões políticas, mas também a religião, cultura e costumes dos homens no Brasil.

Por estas razões, a obra de Debret é considerada grande contribuição para o Brasil, e é frequentemente analisada por historiadores como uma representação (um tanto quanto realista, apesar de não ser perfeita) do cotidiano e sociedade do Brasil – em especial, da vida no Rio de Janeiro – de meados do século XIX. 
Jean-Baptiste Debret - castigo a escravo

Publicada em Paris, entre 1834 e 1839, sob o título Voyage Pittoresque et Historique au Brésil, ou séjour d´un artiste française au Brésil, depuis 1816 jusqu´en en 1831 inclusivement, a obra é composta de 153 pranchas, acompanhadas de textos que elucidam cada retrato.

Tal estilo de obra  não era muito comum entre os artistas que vinham ao Brasil para retratar o país, o que aumenta ainda mais o destaque e importância de Debret: a obra não é considerada tão importante apenas por aspectos artísticos, mas justamente pela combinação de interesse em retratar o cotidiano, com a presença de textos descrevendo as litografias. Preocupando-se com o sentido dos textos, Debret os compara com as ilustrações contidas em seus trabalhos, e é por isso que o aspecto historiográfico é colocado em primeiro plano em relação ao aspecto propriamente artístico.

 
Em "Cena de carnaval", de Debret, escravas de ganho
 em meio à violência do entrudo
O próprio título da obra de Debret apresenta este certo compromisso que ele tentou adquirir nas representações e descrições do Brasil. O uso da palavra “pitoresca” no título Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil denota uma certa precisão, habilidade e talento; características que buscou em suas representações. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil pode ser considerada uma obra em estilo europeu, feita para europeus, visto que o estilo de livro (almanaque) fazia um certo sucesso na Europa na época. 

O livro é dividido em 3 tomos: no primeiro, de 1834, estão representados índios, aspectos da mata brasileira e da vegetação nativa em geral. O segundo tomo, de 1835, concentra-se na representação dos escravos negros, no pequeno trabalho urbano, nos trabalhadores e nas práticas agrícolas da época. Já o tomo terceiro, de 1839, trata de cenas do cotidiano, das manifestações culturais, como as festas e as tradições populares.



EXPOSIÇÃO DAS OBRAS DE DEBRET:

Os Museus Castro Maya, localizados nos bairros cariocas de Santa Teresa e Alto da Boa Vista, possuem alguns dos mais completos acervos das obras de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), o francês que viveu por 15 anos no Rio de Janeiro – onde fundou uma escola de belas-artes e foi nomeado o pintor oficial da corte. Mas a coleção Castro Maya é pouco vista pelo público: apenas uma fração dos quadros se encontra em exposição regular.

“Os desenhos e as gravuras eram a única forma de as pessoas conhecerem lugares distantes, e os europeus tinham muita curiosidade por esses locais exóticos do Novo Mundo, como o Brasil”, diz Anna Paola Baptista, curadora da exposição. “Debret é o cronista maior da vida brasileira na primeira metade do século XIX. Ele acompanhou e documentou visualmente o início do Brasil como nação independente, e especialmente o Rio de Janeiro.”

Depois da queda de Napoleão Bonaparte, Debret aceitou o convite de D. João para integrar a missão artística que viria ao Brasil e criar uma escola de belas-artes. A morte do único filho, aos 19 anos de idade, também contribuiu para a decisão de Debret de deixar a França. Instalado no Rio em 1817, retratou o cotidiano e os costumes dos cariocas.

O dia a dia nas praças, mercados e no cais do porto, a negociação de escravos no centro, e a movimentação dos cidadãos nas ruas. Pintou também ocasiões históricas, como a aclamação do Dom João VI, a ascensão de D. Pedro I com a proclamação da independência, em 1822, a chegada de D. Leopoldina e a coroação de D. Pedro II, em 1831. Pouco depois, Debret retornaria à França, onde editaria o livro Viagem histórica e pitoresca ao Brasil, compilando sua visão do país.
A importância do artista, responsável por apresentar o Brasil à Europa, se tornaria crucial também no país que retratou. “Ele se tornou um cronista do nosso passado. Nós passamos a imaginar o Rio do início do século XIX por meio das gravuras de Debret. Seus desenhos ilustram há gerações os livros didáticos de história do Brasil”, completa a curadora.



terça-feira, 2 de junho de 2015

TESOURO ANALFABETO - Jorge Caldeira

Planta da Cidade de S. Paulo
Situada em 23°,, 33’,, 30” de Latitude Sul; e em 331°,, 24”,, 30”
de Longitude pelo Meridiano da Ilha do Ferro: Var. da Agulha
7,, 15”,, N&.
  • Acréscimo posterior, a lápis: Levantada em 1810 pelo Engenheiro Rufino José Felizardo e Costa


TESOURO ANALFABETO
A cultura oral brasileira, uma riqueza a ser preservada

Uma das peculiaridades mais negativas da colonização portuguesa foi a imposição de uma
política deliberada de analfabetismo no Brasil. Entre as proibições aplicadas à colônia, a mais draconiana foi o veto à utilização de impressoras, mantido a ferro e fogo durante 308 anos. Somente a partir de 1808, quando Dom João VI desembarcou no Rio de Janeiro, os brasileiros puderam conhecer o uso da prensa de Gutenberg. Não é só: a essa altura, o país não dispunha de instituto algum de ensino superior – a população reivindicava, mas jamais foi atendida pela Metrópole. Com tal política, a situação do Brasil na área da cultura escrita era muito ruim no início do século 20, inclusive em comparação com as demais colônias da América. Nos Estados Unidos, a primeira universidade foi fundada na década de 1630, apenas vinte anos após o início da colonização; nas colônias espanholas, havia seis universidades completas no início do século 19. No campo da alfabetização, apenas 3% dos brasileiros eram letrados no momento de nossa Independência, quando nos Estados Unidos esse indicador estava em torno de 15%.

Corrida contra o tempo
Partindo desse atraso, tivemos de correr muito atrás dos outros. As primeiras faculdades brasileiras começaram a funcionar em 1825 – e a primeira universidade, apenas em 1934. A rigor, a cultura letrada só veio a se firmar como realidade no século 20, e a alfabetização de toda a população será uma realidade do século 21, depois do grande esforço pela universalização feito nos últimos oito anos. Certamente, ainda há muito a fazer. Mas o fato é que a realidade da escassa cultura letrada não impediu que se construísse no Brasil uma das mais ricas culturas do Ocidente. A aparente contradição se explica pela intensa participação dos analfabetos nesse processo. Quase tudo que é importante em nossa cultura – música, dança, culinária, vocabulário, artes plásticas, comportamentos – foi sendo desenvolvido por pessoas que não sabiam ler nem escrever. Foram conhecimentos transmitidos por ditados populares, rimas e histórias. Essa cultura se desenvolveu resolvendo um problema de monta: a adaptação da civilização ocidental à floresta tropical, a um ambiente inteiramente novo, no qual com frequência todo o conhecimento técnico dos colonizadores se mostrava inútil. Os europeus precisaram aprender a viver aqui, e aprender isso com os nativos, num complexo processo que continua ainda hoje. E transmitiram por via oral a maior parte dos conhecimentos assim assimilados. Além do mais, esse processo de criação de cultura se enriqueceu a partir da importação maciça de escravos africanos.

Escrita só para letrados
Tudo isso junto deu um sentido de universalidade ao povo brasileiro, ao mesmo tempo que criou um problema para a pequena elite letrada. A rigor, a escrita servia basicamente para a administração pública. Por isso, hoje, toda nossa história tem de ser desencravada, a duras penas, de documentos oficiais. Neles estão as ralas referências a tudo que se fez em termos culturais no Brasil. A cultura escrita escassa, combinada com a cultura oral imensamente rica, é ainda um dado fundamental do Brasil. O grande problema dos alfabetizados brasileiros continua a ser o de, pouco a pouco, trazer esse grande cabedal popular para a forma escrita. Parece fácil, mas na realidade não é.
Foi apenas depois da República que se iniciou  a massificação do ensino – e os eruditos começaram a lançar seu olhar para a cultura popular. Levou ainda algum tempo para que o registro escrito das manifestações populares chegasse a mostrar na íntegra formas de pensar desenvolvidas por analfabetos. Somente com Guimarães Rosa, na segunda metade do século passado, surgiu um romance escrito como monólogo interior (isto é, como registro escrito do modo de pensar) de um analfabeto, que é Grande Sertão - Veredas. Surge assim um problema: considerando que até hoje são limitados os registros por escrito do mais importante modo de pensar da cultura brasileira, a imensa maioria dos livros não está adaptada ao pensamento daqueles que os utilizam.
A rigor, eles muitas vezes dizem coisas que são desmentidas pela prática cotidiana. Outra consequência: muitas pessoas cultas, mesmo com boas intenções, acabam considerando “erradas” as informações culturais dos menos letrados. Mas foi sobre esses “erros” que se construiu a cultura que nos distingue dos povos a nosso redor, e que marca nossa presença neste planeta.

Registros para o futuro
Se não levarmos em consideração dados tão fundamentais, viveremos sempre em insegurança intelectual. Ainda há muito trabalho a ser feito para registrar festas, músicas, ditados, frases, danças, receitas (médicas ou culinárias) e outras manifestações tradicionais, para que tenhamos uma noção clara da imensa produção cultural brasileira. Trata-se de um trabalho fundamental para o futuro do Brasil, e não há exercício mais rico para uma pessoa letrada do que registrar essas manifestações, onde puder encontrá-las. A rigor, o futuro cultural do país, agora letrado, vai depender do quanto se consiga fazer desses registros. Cada um deles é precioso, mesmo que não pareça, e isso fica evidente quando se observa como fizeram falta no passado. Para que se tenha uma ideia: até hoje se conhece um só desenho da cidade de São Paulo antes de 1810, feito por um bispo que por ali passou – e resolveu ilustrar esse pequeno ponto no mapa que fazia na viagem. É quase um desenho infantil, mas já foi reproduzido em centenas de livros, porque é único. Na falta de cenas da cidade – ou de um retrato que seja de seus antigos habitantes, gente como Raposo Tavares, Fernão Dias ou Anhanguera, só para ficar nos casos mais conhecidos – aquele pequeno desenho se tornou o testemunho fundamental de toda uma era. Documentos como esse, também em registros escritos, podem ser feitos aos milhares, em todo o país. O problema é registrar a cultura analfabeta antes que se acabe.

 JORGE CALDEIRA é doutor em ciência política e jornalista.
É autor de Mauá, empresário do Império,
Viagem pela história do Brasil e A nação mercantilista,
entre outros trabalhos.