O LIVRO

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quinta-feira, 18 de maio de 2017

Nossa Literatura - O SONHO DOS RATOS - Rubem Alves



O SONHO DOS RATOS

Rubem Alves

Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade.
Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo seria a suprema felicidade…Bem pertinho é modo de dizer.
Na verdade, o queijo estava imensamente longe porque entre ele e os ratos estava um gato… O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e, era uma vez um ratinho…Os ratos odiavam o gato.
Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro…
Como nada pudessem fazer, reuniram-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem), e chegaram mesmo a escrever livros com a crítica filosófica dos gatos. Diziam que um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais. “Quando se estabelecer a ditadura dos ratos”, diziam os camundongos, “então todos serão felizes”…
– O queijo é grande o bastante para todos, dizia um.
– Socializaremos o queijo, dizia outro.
Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções.
Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem: crescem sempre. E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: “o queijo, já!”…
Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era.
O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu.
Bastou a primeira mordida. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.
Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram.
Arreganharam os dentes. Esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos. A briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E, ato contínuo, começaram a brigar entre si.
Alguns ameaçaram a chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem. O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:
“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.
Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando. Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido.
O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato o olhar malvado, os dentes à mostra.
Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos.


Rubem Azevedo Alves (Boa Esperança, 15 de setembro de 1933 — Campinas, 19 de julho de 2014) foi um psicanalista, educador, teólogo, escritor e ex-pastor presbiteriano brasileiro. Foi autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis.É considerado um dos maiores pedagogos brasileiros de todos os tempos, um dos fundadores da Teologia da Libertação e intelectual polivalente nos debates sociais no Brasil. Foi professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).






quarta-feira, 17 de maio de 2017

Nossa Literatura - AS ELEIÇÕES DE BRUZUNDANGA - Lima Barreto

                                             





                                                             As eleições na Bruzundanga


Dentre as muitas superstições políticas do nosso tempo, uma das mais curiosas é sem dúvida a das eleições. Admissíveis quando se trata de pequenas cidades, para a escolha de autoridades verdadeiramente locais, quase municipais, como eram na antigüidade, elas tomam um aspecto de sortilégio, de adivinhação, ao serem transplantadas para os nossos imensos estados modernos. Um deputado eleito por um dos nossos imensos distritos eleitorais, com as nossas dificuldades de comunicação, quer materiais, quer intelectuais, sai das urnas como um manipanso a quem se vão emprestar virtudes e poderes que ele quase sempre não tem. Os seus eleitores não sabem quem ele é, quais são os seus talentos, as suas idéias políticas, as suas vistas sociais, o grau de interesse que ele pode ter pela causa pública; é um puro nome sem nada atrás ou dentro dele. O eleito, porém, depois de certos passes e benzeduras legais, vai para a Câmara representar-lhes a vontade, os desejos e, certamente, procurar minorar-lhes os sofrimentos, sem nada conhecer de tudo isto.
A superstição eleitoral é uma das nossas cousas modernas que mais há de fazer rir os nossos futuros bisnetos.
Na Bruzundanga, como no Brasil, todos os representantes do povo, desde o vereador até ao presidente da república, eram eleitos por sufrágio universal, e, lá, como aqui, de há muito que os políticos práticos tinham conseguido quase totalmente eliminar do aparelho eleitoral este elemento perturbador — "o voto".
Julgavam os chefes e capatazes políticos que apurar os votos dos seus concidadãos era anarquizar a instituição e provocar um trabalho infernal na apuração porquanto cada qual votaria em um nome, visto que, em geral, os eleitores têm a tendência de votar em conhecidos ou amigos. Cada cabeça, cada sentença; e, para obviar os inconvenientes de semelhante fato, os mesários da Bruzundanga lavravam as atas conforme entendiam e davam votações aos candidatos, conforme queriam.
Na capital da Bruzundanga, Bosomsy, onde assisti diversas eleições, o espetáculo delas é o mais ineditamente pitoresco que se pode imaginar.
As ruas ficam quase desertas, perdem o seu trânsito habitual de mulheres e homens atarefados; mas para compensar tal desfalque passam constantemente por elas carros, automóveis, pejados de passageiros heterogêneos. O doutor-candidato vai neles com os mais cruéis assassinos da cidade, quando ele mesmo não é um assassino; o grave chefe de seção, interessado na eleição de F., que prometeu fazê-lo diretor; o grave chefe, o homem severo com os vadios de sua burocracia, não trepida em andar de cabeça descoberta, com dois ou três calaceiros conhecidíssimos. A fisionomia aterrada e curiosa da cidade dá a entrever que se está à espera de uma verdadeira batalha; e a julgar-se pelas fisionomias que se amontoam nas seções, nos carros, nos cafés, e botequins, parece que as prisões foram abertas e todos os seus hóspedes soltos, naquele dia.
Raro é o homem de bem que se faz eleitor, e se se alista, para atender a pedidos de amigos, não tarda que o seu diploma sirva a outro cidadão mais prestante, que no dia do pleito, para fins eleitorais, muda de nome e toma o do pacato burguês que se deixa ficar em casa, e vota com eles. Isto é o que lá se chama: — "um fósforo".
Às vezes semelhantes eleitores votam até com nomes de mortos, cujos diplomas apresentam aos mesários solenes e hieráticos que nem sacerdotes de antigas religiões. Quer um, quer outro serviço eleitoral, constituem os préstimos mais relevantes que se podem prestar aos políticos de profissão.
Tais costumes eleitorais da Bruzundanga são fonte de muitos casos cômicos, mas, por serem quase semelhantes aos que se passam entre nós, abstenho-me de narrá-los. Entretanto, vou dar-lhes o depoimento de um ingênuo e inteligente eleitor, que descreve a sua iniciação eleitoral na Bruzundanga e os característicos do exercício dos direitos políticos que a sua constituição outorga aos cidadãos.
Trata-se de uma das melhores relações que travei naquele país. Ao tempo em que nos conhecemos, ele tinha aí os seus vinte e seis anos e já havia publicado algumas memórias interessantes sobre a paleontologia da Bruzundanga.
Não sei, ao certo, se continuou com brilho a sua estréia brilhante; mas, suspeito que não.
A sociedade da Bruzundanga mata os seus talentos, não porque os desdenhe, mas porque os quer idiotamente mundanos, cheios de empregos, como enfeites de sala banal.
O meio inconsciente de que ela se serve para tal fim, é o casamento.
O rapaz começa a fazer ruído e logo todos o cercam, já os de sua camada, já os de camada superior, se é de extração modesta.
É natural que ele encontre entre tantas damas da roda que o cerca a do seu pensamento.
Ei-lo casado; a mulher, porém, não pode compreender sábio que não ganhe muito dinheiro e viva modestamente. Não compreende nem Spinosa, nem Fabre. Se não se faz católico praticamente, o rapaz, para arranjar bons empregos, faz-se charlatão, acólito de políticos, já não medita, perde a pertinácia, para as pesquisas originais, publica compilações rendosas e enche-se de cargos públicos e particulares. É esta a trajetória de todas as "esperanças" intelectuais da Bruzundanga.
Penso, por isso, que o meu amigo, Halaké Ben Thoreca, como todos os seus iguais, se banalizou com o casamento e a conseqüente cavação de empregos. Tratemos, porém, da sua estréia eleitoral, como ele me contou. Vamos ouvi-lo:
"Pelos meus vinte e dois anos, uma manhã, li um artigo eloqüente em que se lembrava aos bruzundanguenses a necessidade, o dever de inscrever os seus nomes no próximo alistamento eleitoral. Li e fiquei convencido, Depois de árduos trabalhos, obtive o diploma; e, nas vésperas da eleição, pus-me a estudar os manifestos dos candidatos ao cargo espinhoso de deputado. Fiquei perplexo.
Julho Ben Khosta, com mais de vinte anos de prática no ofício de candidato, prometia, caso fosse eleito, propugnar a disseminação de livros e estampas; e, hoje mesmo, apesar de homem feito, passa horas e horas a folheá-los. A promessa de Julho Ben Khosta demoveu-me a empenhar-lhe o meu voto. Não durou muito essa minha resolução. Na mesma coluna dos apedidos do jornal, a plataforma do doutor Karaban acenava-me com uma grande esperança.
Este doutor gastava frases e juramentos, prometendo que faria decretar a aprovação compulsória dos estudantes reprovados.
Calculem que eu tinha quatro bombas em mecânica e, por aí, poderão imaginar como fiquei contente com semelhante candidato.
Foi tiro e queda: decidi votar no doutor Karaban. Saí bem cedo, para almoçar qualquer cousa.
Na pensão um meu amigo pediu-me que votasse no Kasthriotoh. É um moço muito pobre, está quase na miséria, disse-me o amigo, cheio de família; precisa muito do subsídio.
Tive dó e, quando deixei o almoço, tinha o arraigado propósito de votar no indigente Kasthriotoh. Dirigi-me, no dia próprio, para a seção eleitoral, e esperei. Chamaram-me, afinal.
Quase a tremer, no alevantado fito de influir nos destinos da Pátria consegui atravessar por entre duas filas de homens de aspecto feroz, que me olhavam desdenhosamente.
Sentei-me, mostrei o meu título, assinei um livro, depus a cédula na urna e fiquei um momento cismando diante da esbelteza de um longo arco abatido que, de uma única enjambéee com uma flecha relativamente diminuta, vencia, com suave elegância, toda a largura do átrio do palácio vice-real, onde funcionava a seção eleitoral.
Creio que me demorei indecentemente nessa admiração, porque vi as minhas cismas interrompidas pelo grito enérgico do coronel mesário-presidente:
— O senhor não se levanta! berrou o homem. Obedecendo, afastei-me corrido de vergonha e atravessei de novo por entre aquelas mesmas caras ferozes que me tinham visto passar um pouco antes, no alevantado intuito de influir nos destinos da Pátria.
Aguardei o resultado quieto, a um canto.
Estava seriamente interessado em impedir que o pobre Kasthriotoh morresse de fome, com a mulher, filhos, sogra, cunhadas, etc.
Estive assim cerca de duas horas, ao fim das quais alguns daqueles sujeitos horrendos se aproximaram e, fingindo que o faziam às ocultas, começaram a examinar facas, punhais, estoques, garruchas, revólveres, que traziam. Via perfeitamente tais armas e descobri que mesmo para isso é que eles tal cousa faziam.
Fascinaram-me e não pude desviar o olhar. Foi a minha desgraça, Deus dos Céus! Um deles ergueu o chapéu ao alto da cabeça e fez para mim, encarando-me com horrorosa catadura:
— Que está olhando?
— Nada, não senhor; respondi eu.
— Vá... Você está aí com parte de siri sem unha... Arreda!
E, sem saber como, vi-me envolvido em um formidável rolo e levei uma porção de pauladas e quatro facadas.
Mandaram-me para a Santa Casa, onde meu amigo Hanthônio me foi visitar:
— Que foi isto? perguntou-me.
— Direitos políticos.
Depois de restabelecido, vim a saber que o Kasthriotoh não tivera um único voto e arranjara um emprego modesto que lhe dava para fazê-lo viver e mais a família com café e pão sem manteiga. A ata (eu a pude ver mais tarde) estava um primor de autenticidade, pois tinha sido falsificada com toda a perfeição por um espanhol que vivia do ofício eleitoral de falsificar atas de eleições. Eis como foi a minha estréia eleitoral."
Os meus leitores poderão verificar que, no ponto de vista eleitoral, a Bruzundanga nada tem que invejar da nossa cara pátria.

Os Bruzundangas é um livro de autoria do escritor brasileiro Lima Barreto, publicado póstumamente em 1922. Os direitos autorais sobre as crónicas satíricas Notas sobre a República dos Bruzundangas ou Os Bruzundangas foram vendidos ao editor Jacintho Ribeiro dos Santos em 1917. Primeira edição: 1922


Por Lima Barreto. Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) foi um jornalista escritor nascido no Rio de Janeiro. Era filho de João Henriques de Lima Barreto (mulato nascido liberto) e de Amália Augusta Barreto (filha de escrava liberta pela família Pereira de Carvalho).

sábado, 29 de abril de 2017

Nossa Literatura - O ACENDEDOR DE LAMPIÕES - Jorge de Lima



O ACENDEDOR DE LAMPIÕES
                        Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
Acendedor de lampião

E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

COUTINHO, Afrânio (org.). Jorge de Lima. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1958, vol. I. p.208

Jorge de Lima



A POESIA PRECISA E PRECIOSA DE JORGE DE LIMA

Personalidade artística complexa e diversificada, Jorge de Lima nasceu na cidade de União, Alagoas, em 23 de abril de 1893 e morreu no Rio de Janeiro,em 15 de novembro de 1953. Sua carreira de artista está marcada por uma busca incessante de meios de expressão. Foi poeta, romancista, ensaísta, pintor, escultor. E como poeta, seu princípio unificador, situou-se nas cumeeiras da literatura brasileira. Seu roteiro poético inclui transformações constantes. Fez poesia metrificada, poesia livre, livro de fotomontagem e poema em prosa. Passou pela temática folclórica, religiosa. E publicou desde os XIV Alexandrinos (1914), passando pelo antológico Essa Negra Fulô (1928), até os originalíssimos versos de Anunciação e Encontro de Mira-Celi (1950), Livro de Sonetos (1949) e Invenção de Orfeu (1952), poema épico em 10 cantos.
A um tempo regional e cósmico,clássico e modernista, profano e místico, Jorge de Lima foi, talvez, o poeta mais versátil do Brasil e suas metamorfoses chegaram até a irritar alguns críticos. Mas é necessário reconhecer: em todas as fases Jorge de Lima nunca deixou de ser poeta --e dos melhores. E o seu itinerário é coincidente com as principais etapas percorridas pela poesia brasileira no século passado. Outro aspecto curioso foi relatado por José Fernando Carneiro, médico e amigo de Jorge. Segundo Carneiro "os 77 sonetos que formam o Livro de Sonetos e mais 25 que não foram publicados, ao todo mais de 100, foram escritos em estado hipnogógico, no espaço de 10 dias apenas, levantando-se Jorge de Lima, às vezes de madrugada, e compondo de uma vez três, quatro, cinco sonetos. Limitar-me-ei a referir que foram escritos em momento de grande angústia, quando seu autor começou a sonhar acordado, e a ver, diante de si, entre outras coisas, o galo da igreja do Rosário, a draga da praia de Pajuçara bem defronte de sua casa, e a pretinha Celidônia, que morreu afogada no rio Mundaú".

Por Rubens Jardim


terça-feira, 21 de março de 2017

Nossa Literatura - OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLAS - Rubem Alves








Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos -, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão…”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro de sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas asperezas, arestas e pontas, bastava para envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou-a e deu-a de presente para a sua esposa.
Isso é verdade para as ostras. E é verdade para os seres humanos. No seu ensaio sobre o nascimento da tragédia grega a partir do espírito da música, Nietzche observou que os gregos, por oposição aos cristãos , levavam a tragédia a sério. Tragédia era tragédia. Não existia para eles, como existia para os cristãos, um céu onde a tragédia seria transformada em comédia. Ele se perguntou então das razões por que os gregos, sendo dominados por esse sentimento trágico da vida, não sucumbiram ao pessimismo. A resposta que encontrou foi a mesma da ostra que faz uma pérola: eles não se entregaram ao pessimismo porque foram capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. A felicidade é um dom que deve ser simplesmente gozado. Ela se basta. Mas ela não cria. Não produz pérolas. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas. Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria? Van Gogh, Cecília Meireles, Fernando Pessoa…


Do livro OSTRA FELIZ NÃO FAZ PÉROLAS, Rubem Alves



Rubem Azevedo Alves (Boa Esperança, 15 de setembro de 1933 — Campinas, 19 de julho de 2014) foi um psicanalista, educador, teólogo, escritor e ex pastor presbiteriano brasileiro. Foi autor de livros religiosos, educacionais, existenciais e infantis. É considerado um dos maiores pedagogos brasileiros de todos os tempos, um dos fundadores da Teologia da Libertação e intelectual polivalente nos debates sociais no Brasil. Foi professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Nossa literatura - A FELICIDADE AOS OLHOS DO POETA VICENTE DE CARVALHO





Vicente Augusto de Carvalho, o "Poeta do Mar",nascido na cidade litorânea de Santos, São Paulo em 5 de abril de 1866, falecido na mesma cidade em 22 de abril de 1924, foi um advogado, jornalista, político, abolicionista, fazendeiro, deputado, magistrado, poeta e contista brasileiro. No fim da vida, cansou-se do jornalismo, mas continuou em contato com seus leitores através dos versos que publicava nas páginas da revista "A Cigarra". Ocupou a Cadeira 29 da Academia Brasileira de Letras, tendo sido eleito em 1º de maio de 1909, na sucessão de Artur Azevedo.

OBRAS:

Ardentias (1885);
Relicário (1888);
Rosa, rosa de amor (1902);
Poemas e canções (1908);
Versos da mocidade (1909);
Verso e prosa (1909);
Páginas soltas (1911);
A voz dos sinos (1916);
Luizinha, contos (1924);
Discursos e obras políticas e jurídicas.

Vicente de Carvalho, no soneto ‘Velho Tema”, um dos mais conhecidos de sua obra,  com uma sensibilidade muito profunda, penetra com agudeza no mundo interior do homem e daí procura exprimir os anseios incontidos da alma humana. Mas tudo isso sem decorrer a devaneios e com apuro de forma, de acordo com os moldes do Parnasianismo, esses sentimentos subiam à tona com objetividade e realismo, “às claras”, como ele mesmo preconizava no “Velho Tema”.



VELHO TEMA I 

Só a leve esperança em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada,
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada,
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos,
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim, mas nós não a alcançamos,
Por que está sempre apenas onde a pomos,
E nunca a pomos onde nós estamos.

VELHO TEMA II

Eu cantarei de amor tão fortemente
Com tal celeuma e com tamanhos brados
Que afinal teus ouvidos, dominados,
Hão de à força escutar quanto eu sustente.


Quero que meu amor se te apresente
- Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.


Nem ele mais a desejar se atreve
Do que merece: eu te amo, e o meu desejo
Apenas cobra um bem que se me deve.


Clamo, e não gemo; avanço, e não rastejo;
E vou de olhos enxutos e alma leve
À galharda conquista do teu beijo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Nossa Literatura - ETERNA - Mário Pederneiras


 


                ETERNA (Saudade)
   
     Intérmino que fosse o Caminho da Vida
     E eterno o caminhar do nosso passo incerto,
     Fosse na estrada larga ou fosse no deserto,
     Sem lar, sem pão, sem paz, sem sol e sem guarida;


     Intérmina que fosse a estrada percorrida.
     Sob o Céu todo azul ou de nuvens coberto
     E, o repouso fatal nunca estivesse perto
     E a distancia final nunca fosse vencida;


     E vencendo ao caminho as urzes e os escolhos,
     As lutas, o pavor, o cansaço do dia,
     A fraqueza do passo, a tristeza dos olhos;


     Meu pobre coração nessa eterna ansiedade,
     Nesse eterno sofrer, eterno arrastaria
     Esta triste, esta longa, esta eterna Saudade.



Biografia - Mário Veloso Paranhos Pederneiras (Rio de Janeiro, 2 de novembro de 1868 - Rio de Janeiro, 8 de fevereiro de 1915). Filho de Manuel Veloso Paranhos Pederneiras e de Isabel França e Leite, e irmão de Oscar Pederneiras, Mário Pederneiras foi um carioca que com suas poesias encantou a muitos. Em suas obras se torna claro seu jeito único de escrever e a forma como mostrava ao mundo o que pensava. Estreia na imprensa por volta de 1878, quando colabora como o jornal estudantil O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de Oliveira, no Rio de Janeiro RJ. Colabora ainda com a Gazeta de Notícias, Sans Dessous, O Tagarela e Novidades. Cursa o primeiro e o segundo ano da Faculdade de Direito, em 1888 e 1889, em São Paulo SP, mas não chega a conclui-la. Em 1900 publica Agonia, seu primeiro livro de poesia. Na década de 1910, trabalha na elaboração em prosa da revista teatral inédita Dona Bernarda e da comédia inédita O Dr. Mendes Camacho. Conquista o terceiro lugar no concurso para Príncipe dos Poetas Brasileiros, em 1913, no Rio de Janeiro. Sua obra poética inclui os livros Rondas Noturnas (1901), Histórias do meu Casal, 1904/1906 (1906) e Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida (1912), de estética simbolista. Segundo o crítico Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919 - 1992), "um poeta houve entre os nossos simbolistas que se tornou, com o tempo, o cantor das alegrias da vida doméstica e também das tristezas que a assaltam: esse poeta do lar, da saudade da filha morta, da gratidão à esposa, das coisas humildes como as árvores da rua, a mangueira do quintal, o passeio público, etc., foi Mário Pederneiras".

Principais poemas
⦁ 1900 - ⦁ Agonias
⦁ 1901 - ⦁ Rondas Noturnas
⦁ 1906 - ⦁ Histórias do meu Casal
⦁ 1912 - ⦁ Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida



Mais poemas:

Mar

Oh! Mar! Meu velho Mar! que aos pés desta Cidade
As torturas do Amor inconstante padeces...
Sob a paz deste Céu isolado pareces
O caminho que leva à mansão da Saudade.

Lutas contra este Amor, a quem manso ofereces,
Num suplício servil, toda a tua humildade...
Ruges a tua dor... mas desfeito em bondade
Sobre a esteira da praia, em soluço, embranqueces.

Tens um'Alma infeliz que estranha mágoa encerra,
E se às vezes raivoso os teus ódios revelas,
E de tanto sofrer a repulsa da Terra.

Para ver como és bom, basta o enlevo em que rondas
O solene vagar ondulado das velas,
Na cadência orquestral do balanço das ondas.

Dor suprema


Que esta Suprema Dor que minh'Alma envelhece,
Que tanto me acabrunha e tanto desalenta,
Que repele a Ilusão, como o Sonho afugenta,
Que não cede ao Clamor, como não cede à Prece;

Que esta Suprema Dor que me prende e acorrenta
A mágoa de esperar o que nunca aparece,
Que se entranha na Vida e se alarga e que cresce
E de encontro à Alegria, em lágrimas, rebenta;

Seja o meu calmo abrigo, o meu sereno asilo,
Onde minh'Alma vá, toda branca e alquebrada,
Pedir o Pouso e a Paz para um viver tranquilo.

E que exsurja da Treva em que agora ando imerso
Para eterna viver aqui — marmorizada —
Na tristeza imortal da Lágrima e do Verso.

Trecho final

Meia-tinta de cor dos ocasos do Outono,
Sonho que uma ilusão sobre a vida nos tece
E perfume sutil de uma folha de trevo,
São, decerto, a feição deste livro que escrevo
Neste ambiente de silêncio e sono
Nesta indolência de quem convalesce.

Meu livro é um jardim na doçura do Outono
E que a sombra amacia
De carinho e de afago
Da luz serena do final do dia;
E um velho jardim dolente e triste
Com um velho local de silêncio e de sono
Já sem a luz de verão que o doire e tisne,
Mas onde ainda existe
O orgulho de um Cisne
E a água triste de um Lago.


Fontes de referências: Enciclopédia Itaú Cultural; Wikipédia; Manual de Literatura Brasileira (Editora Rideel)


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Nossa Literatura - HENRIQUETA LISBOA

Henriqueta Lisboa



OS LÍRIOS, de A Face Lívida (1945)

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos — perfeitos! —
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranqüila.


SERENA, de Azul Profundo (1950-1955)

Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavidade
do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levitação
da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.




HENRIQUETA LISBOA

Henriqueta Lisboa (1901-1985), poeta mineira considerada pela crítica um dos grandes nomes da lírica modernista, dedicou-se à poesia, ensaios e traduções. Nasceu em Lambari, Minas Gerais, em 15 de julho de 1901, filha do farmacêutico e deputado federal João de Almeida Lisboa e de Maria Rita Vilhena Lisboa. Formou-se normalista pelo Colégio Sion de Campanha, MG, e, em 1924, mudou-se para o Rio de Janeiro.

Dedicou-se à poesia desde muito jovem. Com Enternecimento, publicado em 1929, de forte caráter simbolista, recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Aderiu ao Modernisno por volta de 1945, fortemente influenciada pela amizade com Mário de Andrade, com quem trocou rica correspondência entre os anos de 1940 e 1945. Sua produção inclui, além da poesia, inúmeras traduções, ensaios e antologias. Foi a primeira mulher eleita para a Academia Mineira de Letras em 1963
.
Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. Foi professora de Literatura Hispano-Americana e Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica (Puc Minas) e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Poeta sensível, dedicou sua vida à poesia. Considerada um dos grandes nomes da lírica modernista pela crítica especializada, Henriqueta manteve-se sempre atuante no diálogo com os escritores e intelectuais de sua geração e angariou muitos leitores ilustres durante sua vida, dentre eles Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Gabriela Mistral.

Sobre sua poesia, Drummond nos deixou o seguinte testemunho: “Não haverá, em nosso acervo poético, instantes mais altos do que os atingidos por esta tímida e esquiva poeta.”

Henriqueta faleceu em Belo Horizonte, no dia 9 de outubro de 1985. Seu Centenário foi comemorado ao longo do ano de 2002 e, além de inúmeros eventos culturais em sua homenagem, várias reedições de sua obra foram feitas com o objetivo de revelar a força de sua poesia para os jovens de hoje.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Nossa Literatura - POEMA - AINDA UMA VEZ ADEUS - Gonçalves Dias







Gonçalves Dias, escritor da época Romântica, poeta da primeira geração. Foi o primeiro grande poeta tipicamente brasileiro. Destacou-se na poesia lírico-amorosa, indianista e nacionalista.

Os trechos do poema que você vai ler pertence às mais belas páginas líricas escritas pelo autor. Foi inspirado na adolescente Ana Amélia, moça por qual se apaixonou e, apesar de ser correspondido, os pais dela não admitiram tal união.

AINDA UMA VEZ, ADEUS


Enfim te vejo! - enfim posso, 
Curvado a teus pés, dizer-te, 
Que não cessei de querer-te, 
Pesar de quanto sofri. 
Muito penei! Cruas ânsias, 
Dos teus olhos afastado, 
Houveram-me acabrunhado 
A não lembrar-me de ti!

II 
Dum mundo a outro impelido, 
Derramei os meus lamentos 
Nas surdas asas dos ventos, 
Do mar na crespa cerviz! 
Baldão, ludíbrio da sorte 
Em terra estranha, entre gente, 
Que alheios males não sente, 
Nem se condói do infeliz! 

III 
Louco, aflito, a saciar-me 
D'agravar minha ferida, 
Tomou-me tédio da vida, 
Passos da morte senti; 
Mas quase no passo extremo, 
No último arcar da esperança, 
Tu me vieste à lembrança: 
Quis viver mais e vivi!

IV 
Vivi; pois Deus me guardava 
Para este lugar e hora! 
Depois de tanto, senhora, 
Ver-te e falar-te outra vez; 
Rever-me em teu rosto amigo, 
Pensar em quanto hei perdido, 
E este pranto dolorido 
Deixar correr a teus pés. (...)

XVII 
Adeus qu'eu parto, senhora; 
Negou-me o fado inimigo 
Passar a vida contigo, 
Ter sepultura entre os meus; 
Negou-me nesta hora extrema, 
Por extrema despedida, 
Ouvir-te a voz comovida 
Soluçar um breve Adeus! 

XVIII 
Lerás porém algum dia 
Meus versos d'alma arrancados, 
D'amargo pranto banhados, 
Com sangue escritos; - e então 
Confio que te comovas, 
Que a minha dor te apiade 
Que chores, não de saudade, 
Nem de amor, - de compaixão.




Gonçalves Dias
O poeta Antônio Gonçalves Dias, que se orgulhava de ter no sangue as três raças formadoras do povo brasileiro (branca, indígena e negra), nasceu no Maranhão em 10 de agosto de 1823. Em 1840 foi para Portugal cursar Direito na Faculdade de Coimbra. Ali, entrou em contato com os principais escritores da primeira fase do Romantismo português.

Em 1843, inspirado na saudade da pátria, escreveu "Canção do Exílio". No ano seguinte graduou-se bacharel em Direito. De volta ao Brasil, iniciou uma fase de intensa produção literária. Em 1849, junto com Araújo Porto Alegre e Joaquim Manuel de Macedo, fundou a revista "Guanabara". Com o objetivo de mudar de vida, embarca novamente para a Europa, onde passa uma temporada. Com a saúde abalada, ele resolve, anos mias tarde, voltar ao Brasil. Na viagem, porém, morre no naufrágio do navio Ville de Boulogne, em 1864, próximo ao Maranhão.

Se por um lado deve-se a Gonçalves de Magalhães a introdução do Romantismo no Brasil, por outro, deve-se a Gonçalves Dias a sua consolidação. Isso porque o poeta trabalhou com maestria todas as características iniciais da primeira fase do Romantismo brasileiro. De sua obra, geralmente dividida em lírica, medieval e nacionalista, destacam-se "I-juca Pirama", "Os Tibiramas" e "Canção do Tamoio".


Mais sobre Gonçalves Dias








quarta-feira, 20 de abril de 2016

Nossa Literatura - TIRADENTES - UM SONHO DE LIBERDADE - Literatura de Cordel






CORDEL SOBRE TIRADENTES

De autoria de ARIEVALDO VIANA, em parceria com outro grande cordelista, ZÉ MARIA DE FORTALEZA, este cordel foi publicado em folheto de dezesseis páginas pela editora Tupynamquim, com capa de KLÉVISSON VIA com uma biografia detalhada, o que levaria um bocado de tempo de digitação, o texto não está completo. Quem quiser ver o texto integral deve entrar em contato com a editora por um desses caminhos: tupynamquim_editora@ibest.com.br



TIRADENTES
Um sonho de liberdade

Zé Maria de Fortaleza e Arievaldo Viana

Num Brasil de tantos Silvas
Quero falar do primeiro
Que embalou nossa pátria
Com um sonho verdadeiro
Foi Joaquim José da Silva
Um grande herói brasileiro.

(...)

Trata-se de um grande herói
Que seus dons proeminentes
Os colocaram no rol
Dos grandes inconfidentes
Foi Joaquim José da Silva
Xavier, o Tiradentes.

Nasceu no século dezoito
No ano quarenta e seis
No Distrito de Pombal
Que lembra o grande Marquês
De Pombal, que foi ministro
Do reinado português.

(...)

Seu padrinho era dentista
E por razões evidentes
Ele aprendeu logo a arte
E por questões decorrentes
Da profissão, lhe custou
A alcunha de Tiradentes.


Na profissão de dentista
Não quis mais continuar
E resolveu investir
Na carreira militar
Foi comandante das tropas
Sem nada lhe intimidar.

(...)

Tiradentes, um plebeu
De origem muito pobre,
Conviveu por algum tempo
No meio de gente nobre
E ante tanta injustiça
Sua vocação descobre.


Viu que a nação brasileira
Não estava satisfeita
Com as ordens lusitanas
E a cobrança suspeita
Percebeu que tal proposta
Por muitos não era aceita.

(...)


Era um homem inteligente
De ampla e clara visão
Um sonho de liberdade
Movia seu coração
Livrar o Brasil Colônia
Do jugo da opressão.

(...)

Tiradentes e seus pares
A justa revolta urdiram
Porém os planos vazaram
Num precipício caíram
Joaquim Silvério e mais dois
Ouviram tudo e o traíram.

(...)

Antes da revolução
Chegar a hora e a vez
A notícia foi levada
Ao Vice-Rei português
Pelo delator infame
Joaquim Silvério dos Reis.

(...)


Prenderam então Tiradentes
Na Rua dos Latoeiros
Já na prisão recebeu
Notícias dos companheiros
Que também estavam presos
Pra revolta dos mineiros.

(...)


A vinte e um de abril
No ano noventa e dois
Daquele século dezoito
A maldade disse: “Pois
Sendo assim, massacrem o réu
Para enforcá-lo depois.


Foram percorrendo as ruas
Lá do Rio de Janeiro
Desde a cadeia ao patíbulo
Levando o prisioneiro
Que apesar do sofrimento
Tinha um semblante altaneiro.


Ao contrário do que os livros
De história têm mostrado
Ele subiu ao patíbulo
Com o cabelo raspado
Trajando uma longa túnica
Por um carrasco puxado.


(...)

Ele cumpriu sua sina
Bastante resignado,
Sonhando ver seu País
Da opressão libertado,
Depois de morto, o herói
Foi também esquartejado.

(...)


Somente com a República
O nosso herói Tiradentes
Virou personalidade
Histórica entre os combatentes
E foi cognominado
Mártir dos inconfidentes.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Data Comemorativa - DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL - MONTEIRO LOBATO





O dia 18 de abril foi instituído como o dia nacional da literatura infantil, em homenagem à Monteiro Lobato, data do nascimento do mesmo. “Um país se faz com homens e com livros”. Essa frase criada por ele demonstra a valorização que o mesmo dava à leitura e sua forte influência no mundo literário.  Para comemorar esta data, o blog Acorda Cordel publicou estes versos, o texto foi publicado em folheto pela editora IMEPH, de Fortaleza-CE. Eis alguns trechos:

Nessa data tão marcante
Dia 18 de abril
Todo o Brasil comemora
Dia do Livro Infantil
Pois nesse dia tão grato
Nasceu Monteiro Lobato
Grande escritor do Brasil.


José Monteiro Lobato
Nasceu lá em Taubaté
No Vale do Paraíba
Onde viceja o café
Foi um garoto eloquente
Travesso e inteligente,
Tornou-se um homem de fé.


Fé na cultura e na força
Dessa pátria brasileira,
E fez da Literatura
Sua paixão verdadeira
Para a criança escreveu
E o Brasil conheceu
Uma obra de primeira.


Tia Anastácia, Visconde,
Dona Benta e Narizinho
Emília, Tio Barnabé,
Cuca, Saci e Pedrinho
São personagens amados
Que sempre serão lembrados
Com gratidão e carinho.


Os seus livros infantis
Têm mais graça e poesia
Falam de história, gramática,
Ciência e astronomia
No meio das brincadeiras
Há lições bem verdadeiras
De pura filosofia.

Dizia que um país
Para ser grande nação
Se faz com homens e livros
Eis uma sábia lição
E que a nossa criança
Para ter mais esperança
Precisa de EDUCAÇÃO.


Com grande programação
Todo o Brasil reconhece
O valor desse escritor
Que todo o Brasil conhece
Devido ao Sítio, tão belo,
Do Pica-Pau Amarelo
Que a todos nós enternece.



Fez “O Poço do Visconde”
“Reinações de Narizinho”
“As Memórias da Emília”
“As caçadas de Pedrinho...”
Em campanhas resolutas
Abraçou algumas lutas
Ao longo de seu caminho.


A exploração do petróleo
Foi sua grande bandeira
E às vezes atrapalhava
Sua brilhante carreira
De escritor consagrado,
Mas deixou grande legado
Para a pátria brasileira.

(...)
Arievaldo Viana

Nossa literatura - MONTEIRO LOBATO - DADOS BIBLIOGRÁFICOS





José Bento Renato Monteiro Lobato, contista, ensaísta e tradutor, este grande nome da literatura brasileira nasceu na cidade de Taubaté, interior de São Paulo, em 18 de abril de  1882. Formado em Direito, atuou como promotor público até se tornar fazendeiro, após receber herança deixada pelo avô.  Diante de um novo estilo de vida, Lobato passou a publicar seus primeiros contos em jornais e revistas, sendo que, posteriormente, reuniu uma série deles em Urupês, obra prima deste famoso escritor.

Em uma época em que os livros brasileiros eram editados em Paris ou Lisboa, Monteiro Lobato tornou-se também editor, passando a editar livros também no Brasil. Com isso, ele implantou uma série de renovações nos livros didáticos e infantis.

Este notável escritor é bastante conhecido entre as crianças, pois se dedicou a um estilo de escrita com linguagem simples onde realidade e fantasia estão lado a lado. Pode-se dizer que ele foi o precursor da literatura infantil no Brasil.

Suas personagens mais conhecidas são: Emília, uma boneca de pano com sentimento e idéias independentes; Pedrinho, personagem que o autor se identifica quando criança; Visconde de Sabugosa, a sabia espiga de milho que tem atitudes de adulto, Cuca, vilã que aterroriza a todos do sítio, Saci Pererê e outras personagens que fazem parte da inesquecível obra: O Sítio do Pica-Pau Amarelo, que até hoje encanta muitas crianças e adultos.

Escreveu ainda outras incríveis obras infantis, como: A Menina do Nariz Arrebitado, O Saci, Fábulas do Marquês de Rabicó, Aventuras do Príncipe, Noivado de Narizinho, O Pó de Pirlimpimpim, Reinações de Narizinho, As Caçadas de Pedrinho, Emília no País da Gramática, Memórias da Emília, O Poço do Visconde, O Pica-Pau Amarelo e A Chave do Tamanho.

Fora os livros infantis, este escritor brasileiro escreveu outras obras literárias, tais como: O Choque das Raças, Urupês, A Barca de Gleyre e o Escândalo do Petróleo. Neste último livro, demonstra todo seu nacionalismo, posicionando-se totalmente favorável a exploração do petróleo apenas por empresas brasileiras.

No ano de 1948, o Brasil perdeu este grande talento que tanto contribuiu com o desenvolvimento de nossa literatura.

 fonte: Sua Pesquisa

domingo, 17 de abril de 2016

Nossa literatura - Literatura e Cordel - ''A POLÍTICA BRASILEIRA - O PERFIL DOS CANDIDATOS''


Maurilio Charge - bolso político
"A Política Brasileira - O perfil do candidatos"

"No Brasil há candidatos
Que só querem enriquecer
Depois que estão eleitos
Do povo não querem saber
Traz um mundo de ruínas
Começam a fazer rapinas
Fugindo do seu dever.

É fácil se conhecer
Basta prestar atenção
São dos que usam o dinheiro
Só para comprar mansão
Da cidade sempre esquece
E depois só aparece
Na hora de nova eleição.

No momento em que aparece
Procurando nos enganar
Ver um pobre pela rua
Vem correndo abraçar
Aí que está o perigo
Tenha cuidado meu amigo
E saiba pra quem vai votar.

Pode colocar na mente
Com toda maturidade
Prepare seu alicerce
Cuidado com tempestade
Não siga por aventura
Pois tem gente que procura
Desdenhar nossa cidade.

Pra quem pensa no progresso
Trabalho e manutenção
Através dessa leitura
Dou-lhe uma sugestão
Cuidado com o perigo
Abra os olhos meu amigo
Na hora da votação.

Fique atento caro eleitor
Na hora da votação
Muitos candidatos prometem
Só pra ganhar a eleição
Depois que estão eleitos
Diz agora não tem mais jeito
Saúde pra pobre não

Não seja um desatento
Lute pela lealdade
Procure manter na vida
Amor e dignidade
Portanto não se entregue
Sem planejar ninguém consegue
Alcançar a felicidade
Não vote num candidato
Que só vem atrapalhar
Quando passa as eleições
Não lembra mais do teu lar
Não falo de brincadeira
Cito aqui Algumas maneiras
Que fazem para nos enganar.

Tem deles que vão chegando
Às vezes nem te conhece
Pra conquistar o teu voto
No momento em que aparece
Fala mal da oposição
Pega logo em tua mão
E assim diz uma prece.

Ó amigo há quanto tempo
Por que não me procurou
Esqueci até o seu nome
Vá dizendo, por favor,
Eu estou aqui de novo
Pra ajudar todo o meu povo
O qual tenho muito amor.

Em seguida um abraço
E um aperto de mão
Quando você solicita
Qualquer alimentação
Ele logo vai dizendo
Agora não estou tendo
E só depois da eleição.

Outro vem com mansidão
E lhe chama até de querido
Quando ganha a eleição
Passa o tempo escondido
Enfrenta qualquer barreira
Para nem por brincadeira
Atender o seu pedido.

Outros chegam à sua casa
Sentam à beira do fogão
Mostrando simplicidade
Comem até do teu feijão
Trata-te com alegria
Isso tudo é fantasia
Só pra ganhar a eleição

Queremos apenas o direito
Na saúde e educação
Justiça e dignidade
Conforme a constituição
Vivenciando um mundo novo
A liberdade de um povo
Sofrido aqui nesse chão.

É melhor pedir a Deus
O nosso Pai Criador
Que nos mostre entendimento
Coragem, paz e amor
Que nos dê determinação
Um voto de gratidão
A um homem trabalhador.

Jesus Cristo é nosso Mestre
Onipotente e redentor
Agradecemos o dom da vida
Que ele nos proporcionou
Unidos sempre teremos
Iluminação no que vemos
Mantendo coragem e amor".


De Joaquim Araújo da Silva - Gandu - Bahia

quinta-feira, 17 de março de 2016

Nossa Literatura - Conto - PLEBISCITO - Arthur Azevedo





Plebiscito

      Arthur Azevedo


A cena passa-se em 1890.

A família está toda reunida na sala de jantar.

O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.

Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.

Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.

Silêncio


De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:

— Papai, que é plebiscito?

O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.

O pequeno insiste:

— Papai?

Pausa:

— Papai?

Dona Bernardina intervém:

— Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar, que lhe faz mal.

O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.

— Que é? que desejam vocês?

— Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.

— Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?

— Se soubesse, não perguntava.

O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:

— Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!

— Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.

— Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?

— Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.

— Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!

— A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...

— A senhora o que quer é enfezar-me!

— Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, falou, falou, e o menino ficou sem saber!

— Proletário — acudiu o senhor Rodrigues — é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.

— Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!

— Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!

— Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: — Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário, meu filho.

O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:

— Mas se eu sei!

— Pois se sabe, diga!

— Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!

E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.

No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...


A menina toma a palavra:

— Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!

— Não fosse tolo — observa dona Bernardina — e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!

— Pois sim — acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão — pois sim, mamãe; chame papai e façam as pazes.

— Sim! Sim! façam as pazes! — diz a menina em tom meigo e suplicante. — Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangaram-se por causa do plebiscito!

Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:

— Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.

O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.

Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.


— É boa! — brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio — é muito boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...

A mulher e os filhos aproximam-se dele.

O homem continua num tom profundamente dogmático:

— Plebiscito...

E olha para todos os lados a ver se há ali mais alguém que possa aproveitar a lição.

— Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.

— Ah! — suspiram todos, aliviados.

— Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...


       Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo, nascido em São Luís do Maranhão a 07 de julho de 1855, é uma das grandes figuras do humorismo brasileiro. Foi jornalista, comediógrafo, contista e poeta. Em toda sua obra campeia um fino e gracioso humorismo. Autor dos "Contos Possíveis", "Contos Efêmeros", "Contos fora de moda", "Contos em verso", "Contos Cariocas" e "Vida alheia", espalhou também sua verve em dezenas de revistas teatrais e de esfuziantes comédias, entre as quais sobressaem "O Dote", "A Almanjarra", "A Véspera de Reis", "O Oráculo", "Vida e Morte", "Entre a Missa e o Almoço", "Entre o Vermute e a Sopa", "Retrato a Óleo" e "O amor por Anexins". Trabalhou nos principais jornais da época, no Rio de Janeiro, tendo fundado e dirigido "A Gazetinha", "Vida Moderna" e "O Álbum". Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, em que ocupou a cadeira n. 29, para a qual tomou Martins Penna como patrono, faleceu no Rio de Janeiro a 22 de outubro de 1908.

Texto extraído do livro "Quem conta um conto... e outros contos" - Seleção e notas INÊS ACHCAR FRANCISCO ACHCAR - CERED Editora SOL São Paulo 1998.

NOTA: O que é plebiscito?  O plebiscito era um instrumento utilizado para o exercício da democracia direta, cuja origem remonta à Lex Hortensia (287 A.C.). Através do plebiscito é pedida a ratificação da confiança da população numa determinada atuação política do governo. A finalidade do plebiscito é a legitimação política.

No regime democrático, através do plebiscito o povo é convocado para emitir a sua opinião escolhendo "sim" ou "não" à execução de determinada decisão governamental. Esse instrumento é utilizado numa fase anterior à elaboração de qualquer lei acerca da proposta do governo. Caso a maioria escolha "Sim", então é dada continuidade ao processo de elaboração de toda a legislação.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Nossa literatura - SER PAULISTA - Martins Fontes


José Martins Fontes

José Martins Fontes, poeta brasileiro, nascido na cidade paulista de Santos, às  17 h 30 min. em 23 de junho de 1884. Como médico, notabilizou-se como conferencista e foi tisiologista da Santa Casa de Misericórdia de Santos e destacado humanista. A partir de 1924 tornou-se correspondente da Academia de Ciência de Lisboa. Morreu em Santos em 25 de junho de 1937 e está sepultado no Cemitério de Paquetá, desta cidade.

Escreveu: Verão(1901); Rosicler; Vulcão; Marabá; Escarlate; Prometeu; O céu Verde; Arlequinada; Partida para Cítera; Boêmia Galante; Laranjeira em Flor; O Colar Partido; A Fada Bom-bom; A Flauta Encantada; Sombra; Silêncio e Sonho; No Templo e Na Oficina; Sevilha; Granada; Torres de Fanasia; Paulistânia;  Guanabara;Nos Rosais das Estrelas; Fantástica; Sol das Almas; I Fioretti; Canções do meu Vergel; e outros.

                                                  SER PAULISTA


Ser paulista! é ser grande no passado

E inda maior nas glórias do presente!

E' ser a imagem do Brasil sonhado,

E, ao mesmo tempo, do Brasil nascente.





Ser paulista! é morrer sacrificado

Por nossa terra e pela nossa gente!

É ter dó das fraquezas do soldado

Tendo horror à filáucia do tenente.





Ser paulista! é rezar pelo Evangelho

De Rui Barbosa — o sacrossanto velho

Civilista imortal de nossa fé.





Ser paulista em brasão e em pergaminho

É ser traído e pelejar sozinho,

É ser vencido, mas cair de pé!

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Nossa Literatura - Poema AS PALAVRAS RESSUSCITARÃO - Jorge de Lima



AS PALAVRAS RESSUSCITARÃO - Jorge de Lima

As palavras envelheceram dentro dos homens

separadas em ilhas,

as palavras se mumificaram na boca dos legisladores;

as palavras apodreceram nas promessas dos tiranos;

as palavras nada significam nos discursos dos homens públicos.


E o Verbo de Deus é uno mesmo com a profanação dos homens de Babel,

mesmo com a profanação dos homens de hoje.

E, por acaso, a palavra imortal há de adoecer?

E, por caso, as grandes palavras semitas podem desaparecer?

E, por acaso, o poeta não foi designado para vivificar a palavra de novo?


Para colhê-la de cima das águas e oferecê-la outra vez aos homens do continente?

E, não foi ele apontado para restituir-lhe a sua essência,

e reconstituir seu conteúdo mágico?

Acaso o poeta não prevê a comunhão das línguas,

quando o homem reconquistar os atributos perdidos com a Queda,

e quando se desfizerem as nações instaladas ao depois de Babel?


Quando toda a confusão for desfeita,

o poeta não falará, do ponto em que se encontrar,

a todos os homens da terra, numa só língua — a linguagem do Espírito?

Se por acaso viveis mergulhados no momento e no limite,

não me compreendereis, irmão!


COUTINHO, Afrânio (org.). Jorge de Lima. Obra Completa. Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1958, vol. I. p.467-468.

Jorge de Lima

Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, 23 de abril de 1893 — Rio de Janeiro, 15 de novembro de 1953) foi um político, médico, poeta, romancista, biógrafo, ensaísta, tradutor e pintor brasileiro. Inicialmente autor de versos alexandrinos, posteriormente transformou-se em um modernista.
Era filho de um comerciante rico e mudou-se para Maceió em 1902, com a mãe e os irmãos. Em 1909 foi morar em Salvador onde iniciou os estudos de medicina. Concluiu o curso no Rio de Janeiro em 1914, mas foi como poeta que projetou seu nome. Neste mesmo ano publicou o primeiro livro, XIV Alexandrinos.

Voltou para Maceió em 1915 onde se dedicou à medicina, além da literatura e da política. Quando se mudou de Alagoas para o Rio, em 1930, montou um consultório na Cinelândia, transformado também em ateliê de pintura e ponto de encontro de intelectuais. Reunia-se lá gente como Murilo Mendes, Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Nesse período publicou aproximadamente dez livros, sendo cinco de poesia. Também exerceu o cargo de deputado estadual, de 1918 a 1922. Com a Revolução de 1930 foi levado a radicar-se definitivamente no Rio de Janeiro.


Em 1939 passou a dedicar-se também às artes plásticas, participando de algumas exposições. Em 1952, publicou seu livro mais importante, o épico Invenção de Orfeu. Em 1953, meses antes de morrer, gravou poemas para o Arquivo da Palavra Falada da Biblioteca do Congresso de Washington, nos Estados Unidos.

domingo, 24 de maio de 2015

Nossa Literatura - CULTURA POPULAR - CORDEL RESISTE Á TECNOLOGIA GRÁFICA





O Cariri mantém uma das mais ricas tradições da cultura popular. É a literatura de cordel que atravessa os séculos sem ser destruída pela avalanche de modernidade que invade o sertão lírico e telúrico. Na contramão do progresso, que informatizou a indústria gráfica, a Lira Nordestina, de Juazeiro do Norte, e a Academia dos Cordelistas do Crato conservam em suas oficinas velhas máquinas para impressão dos seus cordéis.

Em um rompimento com o tradicional, foi criada, em Juazeiro, a Sociedade dos Cordelistas Malditos, uma versão caririense do movimento literário que surgiu na França, no século 18, liderado pelo poeta Paul Verlaine que tinha como objetivo transgredir a poesia convencional.

Os “malditos” de Juazeiro surgiram da necessidade de se contrapor ao sistema tradicional de fazer cordel que, segundo a idealizadora do Projeto Sesc-Cordel, Novos Talentos, Francisca Pereira dos Santos, conhecida por “Fanca”, defende uma temática conservadora, machista e racista. Os cordelistas malditos são mais livres, prosaicos, falam sobre sexualidade e política, mas adotam o sistema antigo de fazer cordel, com sextilhas, papel jornal e xilogravura. O projeto Sesc-Cordel firmou convênio com a gráfica Lira Nordestina, mantida pela Universidade Regional do Cariri (Urca), para a publicação de dois cordéis por mês.

 A oficina da Lira Nordestina é um verdadeiro museu da arte gráfica. Máquinas importadas, como guilhotinas, linotipo, rotoplanas e impressoras manuais — “dinossauros” da indústria gráfica que já foram vedetes dos mais modernos jornais do início do século passado — estão em pleno funcionamento na Lira Nordestina, em Juazeiro. O grande problema é a escassez de tipos (letras), para confecção das chapas.
A chapa para impressão do cordel é feita à mão, letra por letra, um trabalho artesanal que dura cerca de uma hora para confecção de uma página. Em seguida, a chapa é levada para a impressora, também manual, para imprimir. A manutenção desse sistema antigo de impressão faz parte da filosofia do trabalho. A outra etapa é a confecção da xilogravura para a capa do cordel.

As xilogravuras são ilustrações populares obtidas por gravuras talhadas em madeira. Anteriormente, a xilogravura tinha uso considerado “menos nobre”, como a confecção de rótulos de garrafas de cachaça e outros produtos. Sua grande popularidade veio com o cordel. As matrizes para a impressão das ilustrações são talhadas em madeira mole (o cajá, por exemplo), geralmente pelos próprios autores das histórias de cordel que utilizam apenas um canivete ou faca doméstica, bem amolados. No Cariri, o trabalho é feito em umburana.

Um dos mais conhecidos xilógrafos do Cariri é José Lourenço da Silva que já participou de exposições no Sul do País e no exterior. Ele possui álbuns de xilogravuras, contando a vida de Padre Cícero, Lampião e Patativa do Assaré. Agora, ele está lançando cartões-postais com xilogravuras. Recentemente, reproduziu a capa do cordel “Pavão Misterioso” para uma exposição em São Paulo, comemorativa aos 100 anos do antológico cordel.

A origem da xilogravura nordestina até hoje é ignorada. Acredita-se que os missionários portugueses tenham ensinado sua técnica aos índios, como uma atividade extra-catequese, partindo do princípio religioso que defende a necessidade de ocupar as mãos para que a mente não fique livre, sujeita aos maus pensamentos, ao pecado. A xilogravura antecedeu ao clichê, placa fotomecanicamente gravada em relevo sobre metal, usualmente zinco, que era utilizada nos jornais impressos em rotoplanas.

Antônio Vicelmo-onordeste.com (Rádio Educadora Crato-CE)