O LIVRO

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Nossa Literatura - LIVRO: A NARRATIVA DA VONTADE DE DEUS: A HISTÓRIA DO BRASIL DE FREI VICENTE DO SALVADOR






“A narrativa da vontade de Deus: a História do Brasil de frei Vicente do Salvador” – este o título de um dos últimos e mais importantes lançamentos editoriais feitos pela Fundação Biblioteca Nacional. De autoria do historiador Luiz Cristiano de Andrade, o livro apresenta uma nova e consistente interpretação da conhecida “História do Brasil” escrita entre 1619 e 1630 pelo franciscano Vicente do Salvador, a primeira a contar uma história sistemática e abrangente do Brasil e também a primeira a receber este nome.


O livro de Luiz Cristiano originou-se da dissertação de Mestrado do autor defendida em 2004, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O editor, Marcus Venício Ribeiro, conta que tomou conhecimento desse estudo ao escrever recentemente a apresentação de uma nova edição da “História do Brasil” feita pela  Fundação Darcy Ribeiro.

 "Como a Biblioteca Nacional teve um papel crucial na divulgação do manuscrito  de frei Vicente no Brasil, que até o final do século XIX permanecera inédito, não hesitei em entrar em contato com o autor e propor a publicação da dissertação.”

Praticamente desconhecido no país até o final do século XIX, o manuscrito de frei Vicente (na realidade uma cópia feita no século XIX) foi doado por um livreiro à Biblioteca Nacional coincidentemente às vésperas da inauguração da grande Exposição de História do Brasil em dezembro de 1881. Incluído na exposição, tornou-se, nas palavras do então diretor da Biblioteca Nacional, Benjamim Franklin de Ramiz Galvão, uma das “gemas preciosas” apresentadas ao público. A publicação da obra foi feita também pela Biblioteca Nacional, nos Anais da Biblioteca Nacional de 1889, por iniciativa do historiador Capistrano de Abreu. Na época, Capistrano era funcionário da Biblioteca e sua interpretação da obra – ele a viu como a primeira manifestação de um sentimento nativista no Brasil, um “nacionalismo avant la lettre”, segundo Luiz Cristiano – foi reproduzida por outros importantes estudiosos da historiografia brasileira, como Manuel Bomfim, José Honório Rodrigues e Francisco Iglésias.

Para Luiz Cristiano, a “História do Brasil” foi concebida num “regime diverso” do imaginado por Capistrano e seus seguidores. Trata-se, segundo ele, de uma narrativa histórica fundada em princípios retórico-poéticos e teológico-políticos que, muito distante de supostas aspirações nacionalistas, presidiam a escritura dos gêneros históricos no século XVI. Uma visão sacramental e sobrenatural dos acontecimentos históricos subordinada à hermenêutica cristã: o Brasil, de acordo com a vontade de Deus, seria a base para o reerguimento de Portugal, o qual tinha a missão de expandir no mundo a civilização cristã.
HISTÓRIA DO BRASIL - Frei Vicente do Salvador (meu acervo)


A construção da obra busca seus primeiros fundamentos em noções da Antiguidade Clássica correntes ainda no século XVII, como, por exemplo, a crença de que os livros de História são “mestres da vida”, se destinam à difusão dos “bons valores e sentimentos” e ao aconselhamento dos governantes. Não por acaso, o livro tem como fio condutor a cronologia da administração portuguesa na colônia; e celebra, no período da unificação ibérica, os bons serviços prestados a Portugal por D. João III, e pelos governadores, bispos, ouvidores e capitães, clérigos e colonos fundadores, além dos índios que se aliaram aos portugueses. Do outro lado, como obstáculos ao cumprimento da Providência Divina, estavam os hereges franceses e holandeses e os gentios rebeldes, cujo massacre, descrito com indiferença pelo frade, teria as bênçãos de Deus.
Fonte: Biblioteca Nacional 

Sobre frei Vicente do Salvador :
http://brasil-meubrasil-brasileiro.blogspot.com.br/2014/04/nossa-historia-livro-historia-do-brasil.html




Mapa com planta da cidade de Salvador, invadida pelos holandeses em 1624.




quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

LIVRO: A CONQUISTA DO BRASIL 1500-1600 THALES GUARACY





A importância do Rio de Janeiro em A Conquista do Brasil
thalesguaracy.blogspot.com.br  

Pouca gente sabe por que o Rio foi capital brasileira e é uma cidade tão importante na nossa cultura e história. O Rio virou capital por obra do Marquês de Pombal, que considerava sua fundação o verdadeiro marco da colonização do país. Em A Conquista do Brasil, se entende a razão. Até a fundação do forte no morro Cara de Cão por Estácio de Sá, a costa brasileira ainda tinha zonas onde os portugueses não entravam - especialmente o entorno da baía da Guanabara, onde a resistência à colonização se concentrava.

A fundação do forte de São Sebastião foi o princípio do extermínio dos índios tupinambás, que se entrincheiravam em grandes aldeias, transformadas em verdadeiras fortalezas, como aprenderam a fazer com os franceses protestantes. O combate aos índios, que uniu três forças - galeões de guerra vindos de Portugal, a armada do governador Mem de Sá e os mercenários paulistas - foi engendrado e promovido pelos jesuítas, que desejavam erradicar de uma vez os "hereges" do Brasil - tanto os índios, "selvagens canibais", quanto os franceses protestantes.

O resultado disso foi um massacre que não poupou mulheres, velhos e crianças. Estácio de Sá morreu após agonizar por um mês, consequência de uma flechada no olho. Tinha 22 anos. A costa brasileira foi finalmente integrada sob o domínio português. As terras da Guanabara foram distribuídas entre portugueses, paulistas e os próprios jesuítas, que se transformaram nos maiores latifundiários do Novo Mundo.   O Rio de Janeiro foi trasladado do forte, que  mais servia a propósitos militares, para o mais aprazível Catete.

 A conquista do Rio é um dos episódios mais importantes da história brasileira e enriquece nosso entendimento do que é o Brasil. O célebre historiador e brasilianista Kenneth Maxwell escreveu na revista Época que essa é uma passagem "absolutamente fascinante" de A Conquista do Brasil. Tenho que concordar com ele.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Nossa História - LIVRO "História do Brasil" Frei Vicente do Salvador (um fragmento)

O livro "HISTÓRIA DO BRASIL'' de Frei Vicente do Salvador, considerado o primeiro historiador brasileiro é uma obra  dividida em cinco livros, a qual narra o modus vivendi na Colônia, narrando episódios conhecidos de seus primeiros governadores, bem como anedotas, o jeito de falar e de viver nas terras ainda tão novas.
A seguir, um fragmento de sua narrativa do Livro Primeiro, capítulo quarto, sobre o clima do Brasil:

"Do clima e temperamento do Brasil

       Opinião foi de Aristóteles, e de outros filósofos antigos de que a zona tórrida* era inabitável porque como o sol passa por ela cada ano duas vezes para os trópicos, parecia-lhes, que com tanto calor não poderia alguém viver, e confirmavam sua opinião, porque o sol aquenta com os seus raios uniformiter diformiter, mais ao perto que ao longe, e por essa causa no inverno aquenta pouco, porque anda distante, sed sic est, que na zona temperada onde nunca entra, só pelo acesso que faz no verão enfermam, e morrem os homens de calor, logo a fortiori em a zona tórrida donde nunca sai, há de ser mortífero.  

      Porém a experiência tem já mostrado, que a zona tórrida é habitável, e que em algumas partes dela vivem os homens com mais saúde, que em toda a zona temperada, principalmente no Brasil, onde nunca há peste, nem outras enfermidades comuns, senão bexigas de tempos em tempos, de que adoecem os negros, e os naturais da terra, e isto só uma vez, sem a segundar em os que já as tiveram, e se alguns adoecem de enfermidades particulares, é mais por suas desordens, que por malícia da terra. A razão disto é porque ainda que a terra do Brasil seja cálida por estar a maior dela na zona tórrida, contudo é juntamente muito úmida, como se prova do orvalhar tanto de noite, que nem depois de sair o sol a quatro horas se enxugam as ervas; e se alguém dorme ao sereno, se levanta pela manhã tão molhado dele como se lhe houvera chovido.

    Daqui vem também não poder o sal e o açúcar, por mais que o sequem, e resguardem, conservar-se sem umedecer-se, e o ferro e aço de uma espada ou navalha, por mais limpos, esacalado que sejam, se enche logo de ferrugem, e esta umidade é causa de que o calor desta terra se tempere, e faz este clima de boa complexão, outra é pelos ventos leste e nordeste, que ventam do mar todo o verão do meio-dia pouco mais ou menos, até a meia-noite, e lavam e refrescam toda a terra.

    A última causa é pela igualdade dos dias e das noites, porque (como dizem os filósofos) a extensão faz intenção; donde se um pusesse ou tivesse a mão devagar sobre um fogo fraco deestopas ou de palhas se queimaria mais, que se depressa a passasse por um fogo forte, e por isto em Portugal, posto que o calor é mais remisso se sente mais, porque dura mais, e são maiores os dias no verão, que as noites, mas no Brasil, ainda que mais intenso, dura menos, e não aquenta tanto que o frio da noite o não atalhe, que não chegue de um dia a outro. Donde se responde ao argumento de Aristóteles de que o sol aquenta mais na zona tórrida, que na temperada, intensiva, mas não extensiva, e que esta intenção de calor se modera com os ventos frescos do mar, e umidade da terra, junto com a frescura do arvoredo, de que toda está coberta; de tal sorte que os que a habitam vivem nela alegremente. O em que se verifica a opinião dos filósofos é nas coisas mortas, porque estando nas outras terras a carne três ou quatro dias sã, e incorrupta, e da mesma maneira o pescado, nesta não está 24 horas, que se não dane e corrompa."

Nota:  não foi feito nenhuma correção ortográfica no texto, sendo que ele foi mantido na sua forma original, respeitando assim a ortografia da época.

Notas: * O que é ZONA TÓRRIDA
A zona tórrida compreende a área da terra entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio. Geograficamente, a zona tórrida é definida por 23,5 graus de latitude norte e 23,5 graus de latitude sul. A zona tropical é outro nome dado à zona tórrida. Essa zona climática é uma das cinco zonas originais usadas ​​para definir o clima e as zonas de crescimento da terra. A delimitação desta zona já foi modificada para contribuir com a multiplicidade de diferentes biomas localizados dentro desta região tradicionalmente tropical
O termo zona tórrida foi usado pela primeira vez em torno de 320 a.C. pelo cientista grego Aristóteles para definir a área de terra mais próxima do equador. Aristóteles presumia que essa área fosse muito quente para a vida humana, já que os raios solares tangiam essa região diretamente de cima. Ele também sustentou a ideia de uma zona temperada, com um clima agradável e uma zona fria perto do Círculo Polar Ártico. De acordo com a enciclopédia Encarta, outro filósofo grego chamado Parmênides também dividiu estas zonas em cinco regiões distintas com a zona tórrida como a base a partir de 23 graus de latitude norte e sul. As zonas temperadas norte e sul foram adicionadas como as zonas frígidas norte e sul para criar um sistema climático de cinco zonas, sistema esse que permaneceu em uso até o sistema de mapeamento de clima padronizado de Koppen ser concebido e instituído nos séculos 19 e 20
Quando se pensa em trópicos, é muito comum a ideia de chuvas abundantes, plantas e árvores exuberantes e vida animal variada. A zona tórrida contém todos esses recursos e um evento importante que não ocorre nas outras zonas climáticas: o sol está diretamente acima pelo menos uma vez ao ano na zona tórrida. A temperatura nessas zonas tropicais é quente e úmida, sendo que a umidade está presente durante todo o ano. No entanto, a zona tórrida engloba uma variedade de características topográficas que afetam o clima. Considerando-se que muitos desertos e montanhas estão dentro das latitudes que definem a zona tórrida. As florestas tropicais são o que há de mais típico nesta zona, mas até montanhas cobertas de neve podem ser encontradas. A Cordilheira dos Andes, no Chile e na Argentina está dentro da zona tropical e contêm neve e tundra alpina. A Austrália e partes da África também estão na zona tórrida. Ambos os continentes têm grandes áreas de deserto com condições extremamente secas durante todo o ano. A zona tórrida contém áreas de chuvas abundantes e calor na superfície da Terra, Envolvendo a linha do Equador formam-se muitas nuvens que abastecem o clima da zona tórrida. De acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia, esta zona de convergência intertropical pode trazer tempestades diárias para a zona tórrida e controla seu clima. Os ventos alísios do norte se movendo em uma direção sudoeste convergem com os ventos do hemisfério sul, vindos da direção noroeste para formar esse aglomerado de nuvens.
as florestas tropicais são encontradas na zona tórrida da terra
Fontes Bibliográficas - História do Brasil, Livro Primeiro, Bahia dezembro de 1627, Frei Vicente do Salvador; Wikipédia