O LIVRO

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domingo, 22 de março de 2015

Nossa Literatura - O QUINZE - Raquel de Querioz








O título que referencia a época da grande seca em 1915 foi a obra inaugural da autora, que viveu sua infância em Quixadá-CE, Fortaleza. Região esta, cenário desse romance de ficção, que vivência o drama da seca, e expressa principalmente na preocupação social.
A obra se dá praticamente em duas histórias, entre um capítulo e outro: uma enfocando Chico Bento e sua família, e a outra, falando sobre a relação afetiva de Conceição, culta e professora, com seu primo Vicente, rude proprietário e criador de gado.
É uma história que envolve muitas amarguras. Apenas, a triste realidade da família de Chico Bento, já poderia marcar o romance como trágico. A luta para sobreviver um dia após o outro, sem saber sequer se teriam comida ou bebida amanhã. A infame desgraça da falta de chuva assombrando a todos, trazendo a morte. O desespero de homens e mulheres, vendo seus filhos perderem as forças gradativamente e animais caindo de fraqueza por não terem mais verde para comer.
A paisagem seca, árida, triste e quente e que mata!
Conceição, moça letrada, possuindo tendências socialistas, passava férias na fazenda de sua avó, Mãe Nácia, em Logradouro, perto do Quixadá. Período em que aproveitava para ver sua tia, primas e seu primo Vicente, que além de se tratar de um homem bonito e forte, ela tinha por ele grande afeição.
Vicente trabalhava incessantemente para manter os animais vivo, essa era sua prioridade de vida, e quando podia também ia compartilhar e desfrutar da companhia de Conceição, para cobri-la de galanteios. Havia um sentimento recíproco, mas que nunca se concretizava.
Tempos passados, continua as idas e vindas de Conceição para a cidade natal.
Moça de bom coração, trabalhava no campo de concentração onde ficavam alojados os retirantes. Certo dia chega aos ouvidos dela um boato, que Vicente estaria “de namoro” com uma caboclinha. Ela se revolta, não podia entender porque alguém por quem ela tinha tanta admiração, a teria traído. Mas não diz nada para Vicente e começa a tratá-lo de modo indiferente. Vicente se ressente disso e não consegue entender a razão, que fica sem poder se defender. Conceição fez disto uma barreira intransponível para realização do seu amor. Ela admitia que tinha vocação para solteirona.
Em Quixadá, Chico Bento que trabalhava em uma fazenda, teve que ganhar o mundo, fugirdaquela seca, era a última esperança para poder sobreviver, com sua a família. Juntou o dinheiro que ele pode, vendendo algum boi para Vicente, comprou mantimentos, e um burro para atravessar o sertão,  ele, Cordulina, e os cinco filhos. Seu intuito era trabalhar no Norte, extraindo borracha.
No percurso, em momento de grande fome, acaba a comida, e começa a tragédia, Josias, longe dos olhos dos pais, come mandioca crua, envenenando-se.  Agonizou até a morte.
Mais a frente, em uma cena que marcaria ainda mais de tristeza a vida deste vaqueiro, foi quando em desespero, vendo uma cabra em um terreno, ele a captura e a mata para matar a fome dos seus.
Mas, aparece o dono, que não teve pena da situação que encontrava os pobres moribundos, que o humilha, chama-o de ladrão e leva a cabra morta para casa, jogando-lhes apenas as tripas.

 
Depois desse ocorrido, o filho mais velho, Pedro, se decide sem comunicar aos pais, seguir caminho  sem eles, talvez tivesse seguido alguém. E léguas após, Chico Bento chegando ao Aracape, lugar onde supunha que ele pudesse ser encontrado, vai pedir ajuda ao delegado, que era por acaso um compadre seu. Manda saírem em busca do rapaz, mas não o encontram, um volta com a notícia de que ele provavelmente teria partido com um grupo de comboieiros de cachaça. Cordulina já nem chora mais, e pensa que talvez fosse para a felicidade do menino.
Seguem em frente, e chegam ao campo de concentração, onde são reconhecidos por Conceição, sua comadre. Ela, os ajuda com alimentos e arruma um emprego para Chico Bento e pedi para que eles deixem o seu afilhado Duquinha com ela, em adoção e eles concordam pois seria menos um a sofrer. Mesmo com emprego, tudo estava difícil, e Chico resolve ir para São Paulo, também desistindo de ir para Fortaleza trabalhar com a borracha. Conceição arranja passagens de trem e eles mudam sua sorte seguindo para outra cidade com muita esperança de ter um amanhã melhor.
Com a adoção de Duquinha, Conceição sente-se intimamente realizada, preenchendo o vazio da decepção amorosa.
Chegou Dezembro e a tão desejada chuva caiu. A vida retorna com mais brilho de esperança e verde.
Dona Inácia volta para sua cidade.
Passaram-se mais um, dois, três anos. Todas as pessoas nas ruas, barraquinhas... Há tempos que não viam quermesse de Natal tão animada.
Conceição e Vicente continuavam com ressentimentos ocultos, se olhavam, se falavam, mas com magoa e indiferença da parte dela e consequentemente, Vicente só poderia responder da mesma forma.


Raquel de Queiroz


Comentários:

Usando uma linguagem simples, coloquial e regionalista, este dramático, mas encantador romance, a autora esplendidamente escreve com seus, quase 20 anos.
Hoje, passados 79 anos, a história nos revela um quadro amargo na região do nordeste, onde não tiveram progresso e onde a seca continua castigando.
Com o propício tema da seca daquela região, que mostra sua realidade, sem dúvida a parte mais importante do livro foi a trágica e penosa marcha do vaqueiro Chico Bento com sua mulher e seus filhos.
Com o desespero da seca, o vaqueiro perde as esperanças de viver em sua cidade – Aroeiras - e com a família migra pelas terras do sertão, rumo a um outro lugar melhor, em busca de uma solução para suas vidas.
Mas neste trajeto, enfrentam uma grande crise, ficando expostos a fome, sede, doenças e morte. Enfrentam ainda um terrível conflito interno com seus sentimentos, dúvidas, culpas, melancolia e, fugindo do presente, temem o futuro. E arriscaram!
Não poderiam ficar na inércia, deixando o silencio queimar cada segundo de suas vidas. Misturando a fumaça da negligencia com o suor de sua pele.
Sim, era preciso, lutar! Lutar por dias melhores, por melhores oportunidades, mesmo que estas sejam a duras penas, mas sempre ao encontro da “Luz”!
Um enredo que possui nítida a mistura entre realidade e ficção e com todas as características  
de um gênero tipicamente dramático e triste, porém com uma enorme demonstração de força e vontade de viver.
Ao meu entender, a parte da história que poderia ter sido a mais bonita e agradável - que seria a concretização do amor entre Vicente e Conceição e que não ocorreu – talvez assim tenha sido escrita de modo proposital, para chamar a atenção das moças e despertá-las para as consequências de seus ciúmes e de sua imaturidade; por não procurar a verdade dos fatos, escondendo-se em sua magoa e dor e dando um destino descabível para seus sentimentos.
E também, não deixando de lado a figura masculina, que geralmente aparece como “muralhas de orgulhos” - principalmente na rudez do sertão - o personagem Vicente, por estar diante de uma mulher fria que o esnobava,  não insistia, como deveria, em ter uma conversa aberta com ela para possíveis esclarecimentos.
Fazendo com que essa falta de comunicação entre os dois, nos privassem de um desfecho feliz.

por Tânia Berti 

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