O LIVRO

O LIVRO

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Nossa Literatura - TUAS PALAVRAS, AMOR - Henriqueta Lisboa







TUAS PALAVRAS, AMOR
       Henriqueta Lisboa

Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!
Eu não as tinha pressentido,
eu era como a terra sonolenta e exausta
sob a inclemência do céu carregado de nuvens,
quando, igual a uma chuva torrencial de verão,
tuas palavras caíram da altura em cheio
e se infiltraram nos meus tecidos.

O' a minha pletora de alegria!...
As árvores bracejaram recebendo as bátegas entre as ramas,
as corolas bailaram numa ostentação de taças repletas,
os frutos amadurecidos rolaram bêbedos no solo.
E eu vivi a minha hora máxima de lucidez e loucura
sob a chuva torrencial de verão!

Como são belas e misteriosas tuas palavras, Amor!...
Minha alma era um rochedo solitário no meio das ondas,
perdido de todas as cousas do mundo,
quando, ao passar dentro da noite na tua caravela fuga,
tu me enviaste a mensagem suprema da vida.
A tua saudação foi como um bando de alvoroçadas gaivotas
subindo pelas escarpas do rochedo, contornando-lhe as arestas,
aureolando-lhe os cumes.

E a minha alma esmoreceu ao luar dessa noite,
ilha branca da paz, num sonho acordado...
Amor, como são belas e misteriosas as tuas palavras!...




Nossa Literatura - HENRIQUETA LISBOA

Henriqueta Lisboa



OS LÍRIOS, de A Face Lívida (1945)

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos — perfeitos! —
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranqüila.


SERENA, de Azul Profundo (1950-1955)

Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavidade
do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.

E só assim, na levitação
da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.




HENRIQUETA LISBOA

Henriqueta Lisboa (1901-1985), poeta mineira considerada pela crítica um dos grandes nomes da lírica modernista, dedicou-se à poesia, ensaios e traduções. Nasceu em Lambari, Minas Gerais, em 15 de julho de 1901, filha do farmacêutico e deputado federal João de Almeida Lisboa e de Maria Rita Vilhena Lisboa. Formou-se normalista pelo Colégio Sion de Campanha, MG, e, em 1924, mudou-se para o Rio de Janeiro.

Dedicou-se à poesia desde muito jovem. Com Enternecimento, publicado em 1929, de forte caráter simbolista, recebeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da Academia Brasileira de Letras. Aderiu ao Modernisno por volta de 1945, fortemente influenciada pela amizade com Mário de Andrade, com quem trocou rica correspondência entre os anos de 1940 e 1945. Sua produção inclui, além da poesia, inúmeras traduções, ensaios e antologias. Foi a primeira mulher eleita para a Academia Mineira de Letras em 1963
.
Em 1984, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra. Foi professora de Literatura Hispano-Americana e Literatura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica (Puc Minas) e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Poeta sensível, dedicou sua vida à poesia. Considerada um dos grandes nomes da lírica modernista pela crítica especializada, Henriqueta manteve-se sempre atuante no diálogo com os escritores e intelectuais de sua geração e angariou muitos leitores ilustres durante sua vida, dentre eles Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Gabriela Mistral.

Sobre sua poesia, Drummond nos deixou o seguinte testemunho: “Não haverá, em nosso acervo poético, instantes mais altos do que os atingidos por esta tímida e esquiva poeta.”

Henriqueta faleceu em Belo Horizonte, no dia 9 de outubro de 1985. Seu Centenário foi comemorado ao longo do ano de 2002 e, além de inúmeros eventos culturais em sua homenagem, várias reedições de sua obra foram feitas com o objetivo de revelar a força de sua poesia para os jovens de hoje.

Nossa Literatura - CECÍLIA MEIRELES - Poema inédito é descoberto em livro de Cecília Meireles


Cecília Meireles


Cecília Meireles, uma das mais brilhantes poetisas que o Brasil teve o prazer de ter nos revelado mais uma bela arte, mesmo já tendo nos deixado em 1964.

Ulisses Infante, professor da Unesp de São José do Rio Preto, encontrou poema inédito em livro de Cecília Meireles. A descoberta foi publicada dia 8 de março deste ano de 2016, Dia Internacional da Mulher, pelo jornal O Estado de São Paulo.

“Rimance das Donas de Portugal” é um poema de Cecília Meireles esquecido nas páginas de uma publicação dirigida à colônia portuguesa do Brasil, Lusitânia, que, entre 1929 e 1934, teve 118 números. O poema foi escrito há 84 anos e sua leitura ficou restrita à comunidade portuguesa que vivia no Rio no início dos anos 1930. Cecília declamou o poema num evento beneficente promovido pelo Centro do Minho em 4 de outubro de 1931 e o texto foi publicado no número 67 da revista, datado de 31 de outubro.



Trata-se de um poema narrativo que, em sequência cronológica, enumera figuras femininas da história e da literatura portuguesas e assim destaca o protagonismo dessas mulheres no processo histórico e na significação artística. Além das menções à biografia ou ao valor simbólico de personagens como D. Tareja, D. Leonor Teles, D. Filipa de Lencastre, D. Inês de Castro e outras, e das inúmeras referências intertextuais com a tradição literária de língua portuguesa, o poema faz ponderações sobre o sentido dos fatos, valores e conceitos a que essas mulheres se vinculam, prefigurando o processo de narrar e meditar sobre o sentido da história e da existência que Cecília empregará magistralmente no Romanceiro da Inconfidência.

Rimance das Donas de Portugal


Este é o singelo rimance
Por onde ha-de ir, bem ou mal,
Uma palavra de alcance,
Ainda que de relance,
As Donas de Portugal.
Do Portugal pequenino,
Mapa ainda em formação,
Entre os dedos do destino
Que o tirou como a um menino
De dentro do coração…


…Tempo de antanho indeciso,
Quando o tropel das pelejas
Mata ou exalta de improviso…
Paira sôbre êle o sorriso
Das Urracas e Tarejas.
Enquanto Portugal cresce,
Enquanto a conquista escalda,
Detrás da luta aparece
O vulto, que se esmorece,
De alguma Aldonça ou Mafalda…


Figuras mansas, de escassos
Perfis, sem côres nem brilhos.
Postas nos salões dos paços
Entre harpas de timbres lassos
E encantos de remedilhos
Graça dos tempos distantes.
Dos amigos alongados,
Em que se contam instantes
Da ausência dos inconstantes
Falando aos pinos calados.


Tempos de trovas discretas…
Sanchas, Brancas, Leanores…
Quando havia reis poetas
Que, com falas incompletas,
Iam trovando de amores…
E, entre místicas infantas,
De figuras nebulosas,
Assim, ó tempo, levantas,
Rostos de rainhas-santas
Que mudavam pães em rosas…


Outros rostos vêm à tona…
Vêm nas águas do Mondego…
Uma Dona e outra Dona…
E é o fado que as abandona,
Perdidas no seu socêgo…
“Eu era moça e menina,
Por nome, D. Inês…”
Era uma vez uma sina…
Mais uma espada assassina…
E um príncipe… Era uma vez…


Ó coração que sempre amas!
Ó amor, que à desgraça impéles…
Como um sol de estranhas flamas,
Entre as suas nobres damas,
Aparece Leonor Teles.
D. Filipa descerra,
Do alto, a nova dinastia,
Que, após os feitos de guerra,
Há de sonha algum dia
Com a forma oculta da terra…


E este cantar se abandona
Ao gôsto de recordar
A primeira triste Dona
De olhos postos sôbre o mar
Que os navios aprisiona…
Cada noiva real, preciosa…
E cada infanta suave, e cada
Princesa, mais que uma rosa
Sensível e delicada…
E Joana, “desesperada,
Mui triste… muito chorosa…”

No tempo de náus e velas…
No paço se encontrarão
Brites e Marias belas
E a luz que se anima entre elas,
de Francisca de Aragão…
Romabisa… Aonia… Sombria
Estrada de Pastoral…
Ai de quem te viu um dia!
(“A ela chamavam Maria
E ao pastor Crisjal…”)


Serranas vão para os montes.
Poetas vão para naufrágios,
Bem além dos horizontes…
E o amor fez de olhos fontes
Com água de velhos presságios…
Anda vagando pelo ar
Natércia, desconhecida…
Lereno oferece a vida
A alguém que lhe queira dar
Uma esperança perdida…


Pastorinhas encantadas…
Passam rebanhos, sanfonas…
Amadas e desamadas.
Misteriosas, tristes Donas…
E as Donas belas ou feias
Que não teve o Sonhador
Que ao seu sonho as fez alheias,
Namorado das areias
Onde, emfim, morreu de amor…


Madalena de Vilhena
Rompe os espaços, demente,
E o ar se enche de estrenha cena
Em que o fantasma lhe acena
Com gestos de antigamente…
Mas a tréva é iluminada
E o grande horror se dissipa
Quando, empunhando uma espada,
Arma os filhos, clama e brada,
A, de Vilhena, Filipa


O rimance encontra agora,
Como um pássaro no dia,
Donas em que o sonho mora
Vestido de nostalgia…
Velhos nomes de convento:
Violante do Céo… Leonarda…
E aquela em que o sentimento
Faz da desgraça alimento.
– Mariana, a que Deus não guarda…


E as musas passam veladas…
Sono de mágua e desengano…
Mortas figuras caladas…
Grandes paixões torturadas
Unindo Garret a Elmano…
Donas tôdas silenciosas,
Que valeram o universo,
Que nunca foram ditosas,
E morreram como rosas
Dando perfume a algum verso…


Donas mórbidas, vestindo
Seus trajes de cemitério,
E pôndo um sorriso lindo
– Para o fazer mais infindo –
Sobre seu grande mistério…
Donas de pálido rosto,
De violáceas olheiras,
Contemplando, no sol posto,
Tecer-se o véu do desgôsto
Pelas nuvens – fiandeiras…


E as donas que não tiveram
Sua morada nos paços…
Que entre monte e val nasceram,
E em val e monte viveram,
Namoradas dos espaços…
Que encheram da côr dos astros
A ânfora clara do olhar,
E sonharam náus e mastros,
E choraram sôbre os rastros
Dos filhos dados ao mar…


Donas simples, donas fortes,
Donas mortas, donas vivas,
Donas de diversas sortes,
Donas humildes e altivas,
Descuidadas, pensativas,
– Este rimance foi feito,
Donas! Para vos saudar.
Em cada verso imperfeito
O coração toma o geito
De uma vela a navegar…


Sóis tôdas aqui presentes,
Donas de antanho e de agora,
Da estirpe daquelas gentes
De largos sonhos ardentes
Partidos por mar afóra.
Gentes de perpétua lenda,
Que se fizeram assim
Como que se aprenda
Que a sua vida é uma senda
Para rimances sem fim…


**O significado de RIMANCE =  Pequeno canto épico.O romance, ou rimance, tem, na teoria dos géneros literários, formulações diversas: é relato de aventuras, é narrativa que tanto pode abarcar registos em verso como em prosa, e tem, como substrato temático e ideológico, um horizonte de expectativas que passa pela compreensão do maravilhoso, mas também da verosimilhança, ou daquilo que são as categorias da narrativa tratadas de forma mais ou menos conservadoras.


Cecília Meireles

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964) foi uma poetisa, pintora, professora e jornalista brasileira. É considerada uma das vozes líricas mais importantes das literaturas de língua portuguesa.
Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901, filha dos açorianos Carlos Alberto de Carvalho Meireles, um funcionário de banco, e Matilde Benevides Meireles, uma professora. Cecília Meireles foi filha órfã criada por sua avó açoriana, D. Jacinta Garcia Benevides, natural da ilha de São Miguel. Seu pai morreu três meses antes do seu nascimento, e sua mãe morreu quando ela tinha dois anos. Aos nove anos, ela começou a escrever poesia. Frequentou a Escola Normal no Rio de Janeiro, entre os anos de 1913 e 1916 estudou línguas, literatura, música, folclore e teoria educacional.
Em 1919, aos dezoito anos de idade, Cecília Meireles publicou seu primeiro livro de poesias, Espectros, um conjunto de sonetos simbolistas. Embora vivesse sob a influência do Modernismo, apresentava ainda, em sua obra, heranças do Simbolismo e técnicas do Classicismo, Gongorismo, Romantismo, Parnasianismo, Realismo e Surrealismo, razão pela qual a sua poesia é considerada atemporal.
No ano de 1922 casou com o artista plástico português Fernando Correia Dias, com quem teve três filhas. Seu marido, que sofria de depressão aguda, suicidou-se em 1935. Voltou a se casar, no ano de 1940, quando se uniu ao professor e engenheiro agrônomo Heitor Vinícius da Silveira Grilo, falecido em 1972. Dentre as três filhas que teve, a mais conhecida é Maria Fernanda que se tornou atriz.
Teve ainda importante atuação como jornalista, com publicações diárias sobre problemas na educação, área à qual se manteve ligada, tendo fundado, em 1934, a primeira biblioteca infantil do Brasil. Observa-se ainda seu amplo reconhecimento na poesia infantil com textos como Leilão de Jardim, O Cavalinho Branco, Colar de Carolina, O mosquito escreve, Sonhos da menina, O menino azul e A pombinha da mata, entre outros. Com eles traz para a poesia infantil a musicalidade característica de sua poesia, explorando versos regulares, a combinação de diferentes metros, o verso livre, a aliteração, a assonância e a rima. Os poemas infantis não ficam restritos à leitura infantil, permitindo diferentes níveis.
Em 1923, publicou Nunca Mais… e Poema dos Poemas, e, em 1925, Baladas Para El-Rei. Após longo período, em 1939, publicou Viagem, livro com o qual ganhou o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras.Católica, escreveu textos em homenagem a santos, como Pequeno Oratório de Santa Clara, de 1955; O Romance de Santa Cecília e outros.
Em 1951 viajou pela Europa, Índia e Goa, e visitou pela primeira e única vez os Açores, onde na ilha de São Miguel contatou o poeta Armando César Côrtes-Rodrigues, amigo e correspondente desde a década de 1940.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Nossa Literatura - RECEITA DE ANO NOVO - Carlos Drummond de Andrade



Hoje se comemora o nascimento do poeta e escritor Carlos Drummond de Andrade que nasceu em 31 de Outubro de 1902, em homenagem a ele aqui vai uma Receita do autor para o fim de ano que está se aproximando:


RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Nossa Literatura - O LIVRO E A AMÉRICA - Castro Alves




O Livro e a América
            Castro Alves

Talhado para as grandezas,
Pra crescer, criar, subir,
O Novo Mundo nos músculos
Sente a seiva do porvir.
— Estatuário de colossos —
Cansado doutros esboços
Disse um dia Jeová:
"Vai, Colombo, abre a cortina
"Da minha eterna oficina...
"Tira a América de lá".

Molhado inda do dilúvio,
Qual Tritão descomunal,
O continente desperta
No concerto universal.
Dos oceanos em tropa
Um — traz-lhe as artes da Europa,
Outro — as bagas de Ceilão...
E os Andes petrificados,
Como braços levantados,
Lhe apontam para a amplidão.

Olhando em torno então brada:
"Tudo marcha!... Ó grande Deus!
As cataratas — pra terra,
As estrelas — para os céus
Lá, do pólo sobre as plagas,
O seu rebanho de vagas
Vai o mar apascentar...
Eu quero marchar com os ventos,
Corn os mundos... co'os
firmamentos!!!"
E Deus responde — "Marchar!"
>
"Marchar! ... Mas como?...  Da Grécia
Nos dóricos Partenons
A mil deuses levantando
Mil marmóreos Panteon?...
Marchar co'a espada de Roma
— Leoa de ruiva coma
De presa enorme no chão,
Saciando o ódio profundo. . .
— Com as garras nas mãos do mundo,

— Com os dentes no coração?...
"Marchar!... Mas como a Alemanha
Na tirania feudal,
Levantando uma montanha
Em cada uma catedral?...
Não!... Nem templos feitos de ossos,
Nem gládios a cavar fossos
São degraus do progredir...
Lá brada César morrendo:
"No pugilato tremendo
"Quem sempre vence é o porvir!"

Filhos do sec’lo das luzes!
Filhos da Grande nação!
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão:
O livro — esse audaz guerreiro
Que conquista o mundo inteiro
Sem nunca ter Waterloo...
Eólo de pensamentos,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade vooul...

Por uma fatalidade
Dessas que descem de além,
O sec'lo, que viu Colombo,
Viu Guttenberg também.
Quando no tosco estaleiro
Da Alemanha o velho obreiro
A ave da imprensa gerou...
O Genovês salta os mares...
Busca um ninho entre os palmares
E a pátria da imprensa achou...

Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
As almas buscam beber...
Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro caindo n'alma
É germe — que faz a palma,
É chuva — que faz o mar.

Vós, que o templo das idéias
Largo — abris às multidões,
Pra o batismo luminoso
Das grandes revoluções,
Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
E espanta os caboclos nus,
Fazei desse "rei dos ventos"
— Ginete dos pensamentos,
— Arauto da grande luz! ...

Bravo! a quem salva o futuro
Fecundando a multidão! ...
Num poema amortalhada
Nunca morre uma nação.
Como Goethe moribundo
Brada "Luz!" o Novo Mundo
Num brado de Briaréu...
Luz! pois, no vale e na serra...
Que, se a luz rola na terra,
Deus colhe gênios no céu!...

                                                               Castro Alves


Do livro: "Poetas Românticos Brasileiros", vol. I, Editora Lumen, SP, s/ano



domingo, 25 de setembro de 2016

Nossa Literatura - TRABALHO E A ORAÇÃO - Rui Barbosa




Ninguém, senhores meus, que empreenda uma jornada extraordinária, primeiro que meta o pé na estrada, se esquecerá de entrar em conta com as suas forças, por saber se o levarão ao cabo. Mas na grande viagem, na viagem de trânsito por este mundo, não há possa ou não possa, não há querer ou não querer. A vida não tem mais que duas portas: uma de entrar, pelo nascimento; outra de sair, pela morte. Ninguém, cabendo-lhe a vez, se poderá furtar à entrada. Ninguém, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguirá evadir à saída. E, de um ao outro extremo, vai o caminho, longo ou breve, ninguém o sabe, entre cujos termos fatais se debate o homem, pesaroso de que entrasse, receoso da hora em que saia, cativo de um e outro mistério, que lhe confinam a passagem terrestre.
Não há nada mais trágico do que a fatalidade inexorável deste destino, cuja rapidez ainda lhe agrava a severidade.

Em tão breve trajeto cada um há de acabar a sua tarefa. Com que elementos? Com os que herdou e os que cria. Aqueles são a parte da natureza. Estes, a do trabalho.
A parte da natureza varia ao infinito. Não há, no universo, duas coisas iguais. Muitas se parecem umas às outras. Mas todas entre si diversificam. Os ramos de uma só árvore, as folhas da mesma planta, os traços da polpa de um dedo humano, as gotas do mesmo fluido, os argueiros do mesmo pó, as raias do espectro de um só raio solar ou estelar. Tudo assim, desde os astros no céu até os micróbios no sangue, desde as nebulosas no espaço até aos aljôfares do rocio na relva dos prados.

A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente os desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvairos da inveja, do orgulho ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal da criação, pretendendo, não dar a cada um na razão do que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem.
Esta blasfêmia contra a razão e a fé, contra a civilização e a humanidade, é a filosofia da miséria, proclamada em nome dos direitos do trabalho; e, executada, não faria senão inaugurar, em vez da supremacia do trabalho, a organização da miséria.


Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada um nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas pela educação, atividade e perseverança. Tal a missão do trabalho
Os portentos de que esta força é capaz, ninguém os calcula. Suas vitórias na reconstituição da criatura mal dotada só se comparam às da oração.
Oração e trabalho são os recursos mais poderosos na criação moral do homem. A oração é o íntimo sublimar-se da alma pelo contacto com Deus. O trabalho é o inteirar, o desenvolver, o apurar das energias do corpo e do espírito, mediante a ação contínua sobre si mesmos e sobre o mundo onde labutamos.

O indivíduo que trabalha acerca-se continuamente do autor de todas as coisas, tomando na sua obra uma parte de que depende também a dele. O Criador começa e a criatura acaba a criação de si própria.
Quem quer, pois, que trabalhe, está em oração ao Senhor. Oração pelos atos, ela emparelha com a oração pelo culto. Nem pode ser que uma ande verdadeiramente sem a outra. Não é trabalho digno de tal nome o do mau; porque a malícia do trabalhador o contamina. Não é oração aceitável a do ocioso; porque a ociosidade a dessagra. Mas quando o trabalho se junta à oração, e a oração com o trabalho, a segunda criação do homem, a criação do homem pelo homem, semelha, às vezes, em maravilhas, a criação do homem pela divino Criador.

Ninguém desanime, pois, de que o berço lhe não fosse generoso, ninguém se creia malfadado por lhe minguarem, de nascença, haveres e qualidades. Em tudo isso não há surpresas que se não possam esperar da tenacidade e santidade no trabalho.

(Da Oração de Paraninfo, na Fac. de Direito de São Paulo, 1921, em Elõg. Acadêmicos, pp. 358-361)

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Nossa Flora - A frutinha esquecida CAMBUCI está de volta




O nome vem do tupi-guarani, do original caá-mbocy, a fruta de duas partes, segundo o dicionário de Silva Bueno. De fato, a fruta redonda, de 6 a 8 centímetros de diâmetro, parece ter uma divisão no meio quando a olhamos de lado. Mais ou menos como um disco voador desenhado por uma criança ou como os potes de cerâmica fabricados por indígenas habitantes da Mata Atlântica do Sudeste brasileiro. Os potes, aliás, têm o nome da fruta – cambuci – e o mesmo se dá com um bairro da cidade de São Paulo, assim chamado em homenagem à espécie, então comum em seus quintais.

De cor verde quando maduro e extremamente azedo e travoso na boca de quem se arrisca a experimentá-lo in natura, o cambuci (Campomanesia phaea) é matéria-prima de altíssima qualidade para geleiasdoces e sucos. Infelizmente foi esquecido pelo progresso e hoje é considerado vulnerável à extinção na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. Só ocorre naturalmente em poucos remanescentes florestais de São Paulo e do Rio de Janeiro.

O cambuci não apenas brotava na floresta como também no pomar das casas, onde era cultivada para servir de aromatizante na cachaça.
Por se encontrar em sério risco de extinção o cambuci hoje faz parte da Arca do Gosto, lista de alimentos ameaçados criada pela fundação Slow Food.
Agora, dezenas de produtores familiares vêm tirando o cambuci do esquecimento, decididos a explorar o potencial dessa fruta profundamente aromática, doce na fragrância e ácida no paladar. Em todo o cinturão verde de São Paulo, surgiram sucos, sorvetes, geleias, licores e até cosméticos produzidos à base de cambuci - sem falar de receitas excêntricas, como a moqueca e o estrogonofe.

A vitrine disso tudo é a Rota Gastronômica do Cambuci, uma integração de festivais locais que acontece entre março e setembro, cada mês em uma cidade. Em 2013, houve a participação de quase 60 produtores, de sete municípios. A rota foi aumentada este ano. "Já distribuímos mais de 10 mil mudas", conta Gabriel Menezes, diretor da Associação Holística de Participação Comunitária Ecológica (AHPCE), a entidade que organiza o evento.













segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Nossa Pátria - Foto rara de Machado de Assis presidindo a ABL é encontrada


Imagem encontrada por pesquisador que diz ter encontrado o único registro de Machado de Assis (em destaque sob a seta) presidindo uma sessão da ABL, em 31 de outubro de 1905 (Foto: Divulgação)

O próprio "descobridor" da foto reconhece que a qualidade "é ingrata". Mas vale pela raridade: trata-se do único registro já encontrado do escritor Machado de Assis presidindo uma sessão da Academia Brasileira de Letras (ABL), entidade fundada por ele. A imagem (veja acima), que mostra uma reunião de 31 de outubro de 1905, vai ser reproduzida na edição de dezembro na "Revista Brasileira", publicação trimestral da ABL.
O pesquisador independente Felipe Rissato, que encontrou a rara fotografia, explica que ela saiu originalmente na revista "Leitura para Todos" em dezembro daquele ano. Mas jamais foi republicada ou mencionada em qualquer arquivo.

"A própria Academia registra como documento iconográfico mais antigo de uma sessão pública a fotografia da sessão realizada em 17 de maio de 1909, já presidida por Rui Barbosa", diz Rissato em entrevista ao G1 por telefone. De acordo com ele, a nova foto de Machado se torna agora "o registro iconográfico mais antigo de uma sessão da ABL".

Na foto, Machado de Assis aparece entre os acadêmicos Alberto de Oliveira e Silva Ramos. Eles o auxiliavam no andamento da sessão que elegeu Mário de Alencar para ocupar a cadeira nº 21 da ABL, vaga pela morte de José do Patrocínio.

Rissato explica como pôde assegurar que é mesmo o autor de "Memórias póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro" na imagem:
"A legenda [da revista] auxilia, uma vez que dá a data exata da sessão, sobretudo por ser uma revista contemporânea. Porém, mesmo que muito pouco, é possível divisar a face do bruxo, ensanduichada entre os rostos de Alberto de Oliveira e Silva Ramos".
Ele justifica citando que a a foto é bem semelhante a outra feita em 1904 (veja abaixo).


Imagem de perfil do escritor Machado de Assis em 1904 (Foto: Divulgação)
A imagem de 1905 faz parte de uma pesquisa iconográfica de Machado de Assis feita por Rissato. "O número 89 da 'Revista Brasileira' vai publicar ao todo 38 fotos", descreve o pesquisador. "Dentre elas, apenas uma é inédita, feita em 1880 pelo fotógrafo Isley Pacheco. E será a primeira vez em que o conjunto estará reunido."

Na edição 87 da "Revista Brasileira", Rissato já havia divulgado uma crônica até então desconhecida na qual Machado de Assis lamentava a morte de sua mãe (veja abaixo). Intitulado "Lembranças de minha mãe", o texto foi originalmente publicado em 1860 na revista "Revista Luso-Brasileira" e sem assinatura.
"Não era raro o Machado de Assis escrever coisas anônimas e só depois comprovadas", diz Rissato. "Neste caso, foi porque é um tema tão triste, tão caro a todos nós, a perda da mãe."


Crônica 'Lembranças de minha mãe', publicada anonimamente em 1860 na 'Revista Luso-Brasileira' e republicada em junho de 2016 na 'Revista Brasileira', da ABL; pesquisador atribui autoria a Machado de Assis (Foto: Divulgação)

fonte: g1.globo. Artigo por Cauê Muraro do G1, em São Paulo

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

NOSSA HISTÓRIA - A Pátria - RUI BARBOSA

   
Rui Barbosa
A PÁTRIA

E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício. É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. Multiplicai a célula, e tendes o organismo.

Multiplicai a família, e tereis a pátria. Sempre o mesmo plasma, a mesma substância nervosa, a mesma circulação sangüínea. Os homens não inventaram, antes adulteraram a fraternidade, de que Cristo lhes dera a fórmula sublime, ensinando-os a se amarem uns aos outros: “Diliges proximum tuuum sicut te ipsum”.

Dilatai a fraternidade cristã, e chegareis das afeições individuais às solidariedades coletivas, da família à nação, da nação à humanidade. Objetar-me-eis com a guerra!

Eu vos respondo com o arbitramento. O porvir é assaz vasto para comportar esta grande esperança. Ainda entre as nações, independentes, soberanas, o dever dos deveres está em respeitar nas outras os direitos da massa.

Aplicai-o agora dentro das raias desta: é o mesmo resultado; benqueiramo-nos uns aos outros, como nos queremos a nós mesmos. Se o casal do nosso vizinho cresce, enrica e pompeia, não nos amofine a ventura, de que não compartimos. Bendigamos, antes, na rapidez de sua medrança, no lustre da sua opulência, o avulsar da riqueza nacional, que se não pode compor da miséria de todos.

Por mais que os sucessos nos elevem, nos comícios, no foro, no parlamento, na administração, aprendamos a considerar no poder um instrumento de defesa comum, a agradecer nas oposições as válvulas essenciais da segurança da segurança da ordem, a sentir no conflito dos antagonismos descobertos a melhor garantia da nossa moralidade.

Não chamemos jamais de inimigos da pátria aos nossos contendores. Não averbemos jamais de traidores à pátria os nossos adversários mais irredutíveis.

A pátria não é ninguém: são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à idéia, à palavra, à associação.

A pátria não é um sistema, nem é uma seita, nem um monopólio, nenhuma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade. Os que a servem são os que não invejam, os que não inflamam, os que não conspiram, os que não sublevam, os que não desalentam, os que não emudecem, os que não se acobardam, mas resistem, mas ensinam, mas esforçam, mas pacificam, mas discutem, mas praticam a justiça, a admiração, o entusiasmo. Porque todos os sentimentos grandes são benignos e residem originariamente no amor. No próprio patriotismo armado o mais difícil da vocação, e a sua dignidade não está no matar, mas morrer. A guerra, legitimamente, não pode ser o extermínio, nem a ambição: é, simplesmente, a defesa. Além desses limites, seria um flagelo bárbaro, que o patriotismo repudia...

 Rui Barbosa, 1903.


quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Nossa Literatura - POEMA - AINDA UMA VEZ ADEUS - Gonçalves Dias







Gonçalves Dias, escritor da época Romântica, poeta da primeira geração. Foi o primeiro grande poeta tipicamente brasileiro. Destacou-se na poesia lírico-amorosa, indianista e nacionalista.

Os trechos do poema que você vai ler pertence às mais belas páginas líricas escritas pelo autor. Foi inspirado na adolescente Ana Amélia, moça por qual se apaixonou e, apesar de ser correspondido, os pais dela não admitiram tal união.

AINDA UMA VEZ, ADEUS


Enfim te vejo! - enfim posso, 
Curvado a teus pés, dizer-te, 
Que não cessei de querer-te, 
Pesar de quanto sofri. 
Muito penei! Cruas ânsias, 
Dos teus olhos afastado, 
Houveram-me acabrunhado 
A não lembrar-me de ti!

II 
Dum mundo a outro impelido, 
Derramei os meus lamentos 
Nas surdas asas dos ventos, 
Do mar na crespa cerviz! 
Baldão, ludíbrio da sorte 
Em terra estranha, entre gente, 
Que alheios males não sente, 
Nem se condói do infeliz! 

III 
Louco, aflito, a saciar-me 
D'agravar minha ferida, 
Tomou-me tédio da vida, 
Passos da morte senti; 
Mas quase no passo extremo, 
No último arcar da esperança, 
Tu me vieste à lembrança: 
Quis viver mais e vivi!

IV 
Vivi; pois Deus me guardava 
Para este lugar e hora! 
Depois de tanto, senhora, 
Ver-te e falar-te outra vez; 
Rever-me em teu rosto amigo, 
Pensar em quanto hei perdido, 
E este pranto dolorido 
Deixar correr a teus pés. (...)

XVII 
Adeus qu'eu parto, senhora; 
Negou-me o fado inimigo 
Passar a vida contigo, 
Ter sepultura entre os meus; 
Negou-me nesta hora extrema, 
Por extrema despedida, 
Ouvir-te a voz comovida 
Soluçar um breve Adeus! 

XVIII 
Lerás porém algum dia 
Meus versos d'alma arrancados, 
D'amargo pranto banhados, 
Com sangue escritos; - e então 
Confio que te comovas, 
Que a minha dor te apiade 
Que chores, não de saudade, 
Nem de amor, - de compaixão.




Gonçalves Dias
O poeta Antônio Gonçalves Dias, que se orgulhava de ter no sangue as três raças formadoras do povo brasileiro (branca, indígena e negra), nasceu no Maranhão em 10 de agosto de 1823. Em 1840 foi para Portugal cursar Direito na Faculdade de Coimbra. Ali, entrou em contato com os principais escritores da primeira fase do Romantismo português.

Em 1843, inspirado na saudade da pátria, escreveu "Canção do Exílio". No ano seguinte graduou-se bacharel em Direito. De volta ao Brasil, iniciou uma fase de intensa produção literária. Em 1849, junto com Araújo Porto Alegre e Joaquim Manuel de Macedo, fundou a revista "Guanabara". Com o objetivo de mudar de vida, embarca novamente para a Europa, onde passa uma temporada. Com a saúde abalada, ele resolve, anos mias tarde, voltar ao Brasil. Na viagem, porém, morre no naufrágio do navio Ville de Boulogne, em 1864, próximo ao Maranhão.

Se por um lado deve-se a Gonçalves de Magalhães a introdução do Romantismo no Brasil, por outro, deve-se a Gonçalves Dias a sua consolidação. Isso porque o poeta trabalhou com maestria todas as características iniciais da primeira fase do Romantismo brasileiro. De sua obra, geralmente dividida em lírica, medieval e nacionalista, destacam-se "I-juca Pirama", "Os Tibiramas" e "Canção do Tamoio".


Mais sobre Gonçalves Dias








sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Nossa Literatura - LIVRO: A NARRATIVA DA VONTADE DE DEUS: A HISTÓRIA DO BRASIL DE FREI VICENTE DO SALVADOR






“A narrativa da vontade de Deus: a História do Brasil de frei Vicente do Salvador” – este o título de um dos últimos e mais importantes lançamentos editoriais feitos pela Fundação Biblioteca Nacional. De autoria do historiador Luiz Cristiano de Andrade, o livro apresenta uma nova e consistente interpretação da conhecida “História do Brasil” escrita entre 1619 e 1630 pelo franciscano Vicente do Salvador, a primeira a contar uma história sistemática e abrangente do Brasil e também a primeira a receber este nome.


O livro de Luiz Cristiano originou-se da dissertação de Mestrado do autor defendida em 2004, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O editor, Marcus Venício Ribeiro, conta que tomou conhecimento desse estudo ao escrever recentemente a apresentação de uma nova edição da “História do Brasil” feita pela  Fundação Darcy Ribeiro.

 "Como a Biblioteca Nacional teve um papel crucial na divulgação do manuscrito  de frei Vicente no Brasil, que até o final do século XIX permanecera inédito, não hesitei em entrar em contato com o autor e propor a publicação da dissertação.”

Praticamente desconhecido no país até o final do século XIX, o manuscrito de frei Vicente (na realidade uma cópia feita no século XIX) foi doado por um livreiro à Biblioteca Nacional coincidentemente às vésperas da inauguração da grande Exposição de História do Brasil em dezembro de 1881. Incluído na exposição, tornou-se, nas palavras do então diretor da Biblioteca Nacional, Benjamim Franklin de Ramiz Galvão, uma das “gemas preciosas” apresentadas ao público. A publicação da obra foi feita também pela Biblioteca Nacional, nos Anais da Biblioteca Nacional de 1889, por iniciativa do historiador Capistrano de Abreu. Na época, Capistrano era funcionário da Biblioteca e sua interpretação da obra – ele a viu como a primeira manifestação de um sentimento nativista no Brasil, um “nacionalismo avant la lettre”, segundo Luiz Cristiano – foi reproduzida por outros importantes estudiosos da historiografia brasileira, como Manuel Bomfim, José Honório Rodrigues e Francisco Iglésias.

Para Luiz Cristiano, a “História do Brasil” foi concebida num “regime diverso” do imaginado por Capistrano e seus seguidores. Trata-se, segundo ele, de uma narrativa histórica fundada em princípios retórico-poéticos e teológico-políticos que, muito distante de supostas aspirações nacionalistas, presidiam a escritura dos gêneros históricos no século XVI. Uma visão sacramental e sobrenatural dos acontecimentos históricos subordinada à hermenêutica cristã: o Brasil, de acordo com a vontade de Deus, seria a base para o reerguimento de Portugal, o qual tinha a missão de expandir no mundo a civilização cristã.
HISTÓRIA DO BRASIL - Frei Vicente do Salvador (meu acervo)


A construção da obra busca seus primeiros fundamentos em noções da Antiguidade Clássica correntes ainda no século XVII, como, por exemplo, a crença de que os livros de História são “mestres da vida”, se destinam à difusão dos “bons valores e sentimentos” e ao aconselhamento dos governantes. Não por acaso, o livro tem como fio condutor a cronologia da administração portuguesa na colônia; e celebra, no período da unificação ibérica, os bons serviços prestados a Portugal por D. João III, e pelos governadores, bispos, ouvidores e capitães, clérigos e colonos fundadores, além dos índios que se aliaram aos portugueses. Do outro lado, como obstáculos ao cumprimento da Providência Divina, estavam os hereges franceses e holandeses e os gentios rebeldes, cujo massacre, descrito com indiferença pelo frade, teria as bênçãos de Deus.
Fonte: Biblioteca Nacional 

Sobre frei Vicente do Salvador :
http://brasil-meubrasil-brasileiro.blogspot.com.br/2014/04/nossa-historia-livro-historia-do-brasil.html




Mapa com planta da cidade de Salvador, invadida pelos holandeses em 1624.




sábado, 23 de julho de 2016

Nossa História - CITOU - Personagem da História - José Bonifácio de Andrade e Silva - UM DEFENSOR DOS ESCRAVOS





"É tempo de irmos acabando gradualmente, até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar, em poucas gerações, uma nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes". José Bonifácio de Andrada e Silva

A ideia de libertação dos escravos era antiga no Brasil. Surgira durante a Inconfidência Mineira e na Revolução Pernambucana de 1817. Logo após a nossa Independência, em 1822, muitos políticos passaram a olhar com certo temor o aumento da massa escrava.

     José Bonifácio de Andrada e Silva (Santos, 13 de junho de 1763 — Niterói, 6 de abril de 1838 ) foi um naturalista, estadista e poeta brasileiro. É conhecido pelo epíteto de "Patriarca da Independência" por ter sido uma pessoa decisiva para a Independência do Brasil.Bonifácio de Andrada e Silva foi o principal  personagem da Independência política e do início da formação da nacionalidade brasileira. Em meio a tantas personalidades de alto nível -como Frei Caneca, Cipriano Barata, Feijó- sua atuação foi decisiva nesses primeiros momentos de vida diplomática, política e cultural do novo país. Quanto à escravatura negra o projeto de José Bonifácio sobre a abolição do tráfico de escravos  africanos e a escravidão constitui a mais importante e vigorosa obra brasileira contra o tráfico, o que explica a ira geral dos comerciantes negreiros que contra ele se levantou.

sábado, 9 de julho de 2016

Data Comemorativa - 9 DE JULHO - DIA DA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA





Nove de julho, feriado em todo o Estado de São Paulo, mas qual feriado é este? Nesta data, em todo estado de São Paulo, é celebrado o Dia da Revolução Constitucionalista, ocorrida na década de 1930.
A  Revolução Constitucionalista, ocorrida em 9 de julho de 1932, foi um movimento contra o primeiro governo de Getúlio Vargas (ocorrido entre 1930 e 1945). Antes do golpe de Estado que colocou Vargas no poder, em 1930, o Brasil era regido pela “política do café com leite”, pela qual as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais se revezavam na presidência do País.

Tão logo assume, o gaúcho Vargas dissolve o Congresso, destitui os governadores e nomeia interventores de sua confiança (muitos tenentes) nos Estados.  Ainda em novembro cria dois novos ministérios, um deles, o do Trabalho, entregue ao gaúcho Lindolfo Collor, avô do futuro presidente Fernando Collor, que revela suas preocupações em regular as relações entre patrões e empregados.
Evidente que as elites , ''donas'' da Velha República , não se conformam com a nova ordem imposta por gaúchos e mineiros, e em julho de 1932 partem para o contra golpe no que chamam de Revolução Constitucionalista. Não conseguem a adesão de um único Estado da federação e resistem por dois meses.
Cartaz do M.M.D.C. utilizado para recrutar
 jovens para o movimento em 1932

O estopim da Revolução Constitucionalista foi a morte dos estudantes Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade, durante a tentativa de invasão da sede de um jornal favorável ao regime varguista, em 23 de maio de 1932.
A sigla M.M.D.C., que remete às iniciais dos nomes pelos quais os estudantes mortos eram conhecidos (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo), se transformaram no símbolo do movimento, como mostra o cartaz de convocação de voluntários para a Revolução Constitucionalista, do acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).
Entre os meses de julho e outubro de 1932, as ruas de São Paulo foram o cenário de conflitos entre os revoltosos e as tropas do governo federal. O movimento, que exigia a promulgação de uma nova Constituição, fracassou no dia 1º de outubro de 1932, quando foi assinada a rendição que pôs fim à Revolução. Os principais líderes da revolta tiveram os seus direitos políticos cassados e foram deportados para a Europa.


Um dos monumentos mais emblemáticos de São Paulo faz referência à Revolução de 9 de julho de 1932. Trata-se do Obelisco do Ibirapuera, oficialmente chamado Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32. Lá estão sepultados os corpos de Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo e de outros 713 mortos durante o movimento paulista anti-Vargas.



O Obelisco, que tem 72 metros de altura, está localizado na Avenida Pedro Álvares Cabral, no Parque do Ibirapuera. O monumento foi feito em mármore e inaugurado em 9 de julho de 1955, com projeto do escultor ítalo-brasileiro Galileo Ugo Emendabili e execução do engenheiro alemão radicado no Brasil Ulrich Edler.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Nossa Literatura - TIRADENTES - UM SONHO DE LIBERDADE - Literatura de Cordel






CORDEL SOBRE TIRADENTES

De autoria de ARIEVALDO VIANA, em parceria com outro grande cordelista, ZÉ MARIA DE FORTALEZA, este cordel foi publicado em folheto de dezesseis páginas pela editora Tupynamquim, com capa de KLÉVISSON VIA com uma biografia detalhada, o que levaria um bocado de tempo de digitação, o texto não está completo. Quem quiser ver o texto integral deve entrar em contato com a editora por um desses caminhos: tupynamquim_editora@ibest.com.br



TIRADENTES
Um sonho de liberdade

Zé Maria de Fortaleza e Arievaldo Viana

Num Brasil de tantos Silvas
Quero falar do primeiro
Que embalou nossa pátria
Com um sonho verdadeiro
Foi Joaquim José da Silva
Um grande herói brasileiro.

(...)

Trata-se de um grande herói
Que seus dons proeminentes
Os colocaram no rol
Dos grandes inconfidentes
Foi Joaquim José da Silva
Xavier, o Tiradentes.

Nasceu no século dezoito
No ano quarenta e seis
No Distrito de Pombal
Que lembra o grande Marquês
De Pombal, que foi ministro
Do reinado português.

(...)

Seu padrinho era dentista
E por razões evidentes
Ele aprendeu logo a arte
E por questões decorrentes
Da profissão, lhe custou
A alcunha de Tiradentes.


Na profissão de dentista
Não quis mais continuar
E resolveu investir
Na carreira militar
Foi comandante das tropas
Sem nada lhe intimidar.

(...)

Tiradentes, um plebeu
De origem muito pobre,
Conviveu por algum tempo
No meio de gente nobre
E ante tanta injustiça
Sua vocação descobre.


Viu que a nação brasileira
Não estava satisfeita
Com as ordens lusitanas
E a cobrança suspeita
Percebeu que tal proposta
Por muitos não era aceita.

(...)


Era um homem inteligente
De ampla e clara visão
Um sonho de liberdade
Movia seu coração
Livrar o Brasil Colônia
Do jugo da opressão.

(...)

Tiradentes e seus pares
A justa revolta urdiram
Porém os planos vazaram
Num precipício caíram
Joaquim Silvério e mais dois
Ouviram tudo e o traíram.

(...)

Antes da revolução
Chegar a hora e a vez
A notícia foi levada
Ao Vice-Rei português
Pelo delator infame
Joaquim Silvério dos Reis.

(...)


Prenderam então Tiradentes
Na Rua dos Latoeiros
Já na prisão recebeu
Notícias dos companheiros
Que também estavam presos
Pra revolta dos mineiros.

(...)


A vinte e um de abril
No ano noventa e dois
Daquele século dezoito
A maldade disse: “Pois
Sendo assim, massacrem o réu
Para enforcá-lo depois.


Foram percorrendo as ruas
Lá do Rio de Janeiro
Desde a cadeia ao patíbulo
Levando o prisioneiro
Que apesar do sofrimento
Tinha um semblante altaneiro.


Ao contrário do que os livros
De história têm mostrado
Ele subiu ao patíbulo
Com o cabelo raspado
Trajando uma longa túnica
Por um carrasco puxado.


(...)

Ele cumpriu sua sina
Bastante resignado,
Sonhando ver seu País
Da opressão libertado,
Depois de morto, o herói
Foi também esquartejado.

(...)


Somente com a República
O nosso herói Tiradentes
Virou personalidade
Histórica entre os combatentes
E foi cognominado
Mártir dos inconfidentes.

Nossa Literatura - Romanceiro da Inconfidência (uma análise)- Cecília Meireles



Inspirada por uma visita a Ouro Preto, Cecília Meireles compôs esse poema de temática social, que evoca a luta pela liberdade no Brasil do século XVIII e incorpora elementos dramáticos, épicos e líricos
Fruto de longa pesquisa histórica, Romanceiro da Inconfidência é, para muitos, a principal obra de Cecília Meireles. Nesse livro, por meio de uma hábil síntese entre o dramático, o épico e o lírico, há um retrato da sociedade de Minas Gerais do século XVIII, principalmente dos personagens envolvidos na Inconfidência Mineira, abortada pela traição de Joaquim Silvério dos Reis, o que culminou na execução de Tiradentes.

GÊNERO ROMANCEIRO
O gênero romanceiro é uma coleção de poesias ou canções de caráter popular. De tradição ibérica, surgiu na Idade Média e é, em geral, uma narrativa com um tema central. Cada parte tem o nome de romance – que não deve ser confundido com a denominação do atual gênero em prosa.

Nessa obra de Cecília Meireles, há 85 romances, além de outros poemas, como os que retratam os cenários. Em sua composição, é utilizada principalmente a medida velha, ou seja, a redondilha menor, verso de cinco sílabas poéticas (pentassílabo) e, predominantemente, a redondilha maior, verso de sete sílabas (heptassílabo), como ocorre na “Fala Inicial”:

Não posso mover meus passos
por esse atroz labirinto
de esquecimento e cegueira
em que amores e ódios vão:
(...)

No entanto, deve-se observar que, por ser uma autora moderna, Cecília não se prende totalmente a esse modelo. Vale-se, também, de versos mais curtos, de quatro sílabas, como em “Fala aos Inconfidentes Mortos”:

Treva da noite,
lanosa capa
nos ombros curvos
dos altos montes
aglomerados...
(...)

Há também os mais longos, como os decassílabos em “Cenário”, no início:

Passei por essas plácidas colinas
E vi das nuvens, silencioso, o gado,
Pascer nas solidões esmeraldinas.
(...)

Quanto às rimas, a autora utiliza as chamadas imperfeitas (terminações de versos semelhantes), como se pode observar no Romance XIII:

Eis que chega ao Serro Frio,
à terra dos diamantes,
o Conde de Valadares,
fidalgo de nome e sangue,
José Luís de Meneses
de Castelo Branco e Abranches.
Ordens traz do grão Ministro
de perseguir João Fernandes.
(...)

A escritora faz uso, ainda, de rimas perfeitas (terminação em sons vocálicos e consonantais idênticos), tal como no Romance VI:

Já se preparam as festas
para os famosos noivados
que entre Portugal e Espanha
breve serão celebrados.
Ai, quantas cartas e acordos
redigidos e assinados!
(...)

CONTEXTO HISTÓRICO
Romanceiro da Inconfidência caracteriza- se como uma obra lírica, de reflexão, mas com um contexto épico, narrativo, firmemente calcado na história. Em 1789, inspirados pelas idéias iluministas européias e pela independência dos Estados Unidos, alguns homens tentam organizar um movimento para libertar a colônia brasileira de sua metrópole portuguesa.

Uma pesada carga tributária sobre o ouro extraído das Minas Gerais deixava os que viviam dessa renda cada vez mais descontentes. Assim, donos de minas, profissionais liberais – entre os quais alguns poetas árcades – e outros começaram a conspirar contra Portugal. Contudo, o movimento é delatado e os envolvidos, presos. Alguns são condenados ao exílio, e o único a ser executado, na forca, é Tiradentes, em 21 de abril de 1792.

GÊNESE EM OURO PRETO
Nessa obra, Cecília Meireles utiliza-se, pela primeira vez, da temática social, de interesse histórico e nacional, enfatizando a luta pela liberdade. Sem aprofundadas reflexões filosóficas, mas com muita sensibilidade, a autora dá uma visão mais humana dos protagonistas daquele que foi o primeiro grande movimento de emancipação do Brasil: a Inconfidência Mineira.

Como se trata de um fato histórico, e dos mais importantes, a autora tem o cuidado de não se limitar a relatá-lo em versos, mas procura recriá-lo por meio da imaginação.

A gênese da obra ocorreu, de acordo com depoimento da escritora, quando foi pela primeira vez à cidade de Ouro Preto (ex-Vila Rica), local onde se organizou o movimento de Tiradentes e seus companheiros.

Cecília afirmou: “Todo o presente emudeceu, como platéia humilde, e os antigos atores tomaram suas posições no palco. Vim com o modesto propósito jornalístico de descrever as comemorações de uma Semana Santa; porém os homens de outrora misturaram-se às figuras eternas dos andores; (...) na procissão dos vivos caminhava uma procissão de fantasmas (...). Era, na verdade, a última Semana Santa dos inconfidentes: a do ano de 1789”.

ROMANCES
Tematicamente, pode-se localizar a ambientação da narrativa nos primeiros 19 romances. A descoberta do ouro, o início de uma nova configuração social com a chegada dos mineradores e toda a estrutura formada para atendê-los, os costumes, os “causos”, como o da donzela morta por uma punhalada desferida pelo próprio pai (Romance IV), ou os cantos dos negros nas catas (VII), o folclore, a história do contratador João Fernandes e de sua amante Chica da Silva e o alerta sobre a traição do Conde de Valadares (XIII a XIX). A ênfase recai na cobiça do ouro, que torna as pessoas inescrupulosas.

Vila Rica é o “país das Arcádias”, numa alusão direta ao neoclassicismo brasileiro, com seus principais poetas e suas pastoras: Glauceste Satúrnio e Nise, Dirceu e Marília. No belo Romance XXI, as primeiras idéias de liberdade começam a circular.


A partir do Romance XXIV, a insatisfação, a revolta contra a corte portuguesa é explicitada com a confecção de uma bandeira (Libertas quae sera tamen). Do XXVII ao XLVII, há a atuação do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que procurava atrair mais gente para a conspiração, em longas cavalgadas pela estrada que levava ao Rio. Contudo, os planos são abortados antes de ser efetivamente colocados em prática por causa dos delatores, principalmente Joaquim Silvério dos Reis (XXVIII):

(...)
Ai, que o traiçoeiro invejoso
junta às ambições a astúcia.
Vede a pena como enrola
arabescos de volúpia,
entre as palavras sinistras
desta carta de denúncia!
(...)

Segue-se uma devassa completa, prisões, confisco de bens, falsos testemunhos, a morte de Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste Satúrnio, sob condições misteriosas (XLIX), a execução de Tiradentes, antecipada na fala do carcereiro (LII) e explicitada nos romances LVI a LXIII:

(...)
Já lhe vão tirando a vida.
Já tem a vida tirada.
Agora é puro silêncio,
repartido aos quatro ventos,
já sem lembrança de nada. (...)

Após um período como magistrado, Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu, é também preso, julgado e condenado ao exílio em Moçambique (LIV e LV). Lá, longe de sua ex-noiva e agora inconsolada Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília (LXXIII), casa-se com Juliana de Mascarenhas (LXXI).

Os romances finais falam do poeta Alvarenga Peixoto, sua esposa, Bárbara Eliodora, e sua filha, Maria Ifigênia (LXXV a LXXX); o retrato de Marília idosa; lamentos pela calamidade mineira; e a loucura e morte de D. Maria I (LXXXII e LXXXIII). A obra é concluída com a “Fala aos
Inconfidentes Mortos”:

E aqui ficamos
todos contritos,
a ouvir na névoa
o desconforme,
submerso curso
dessa torrente
do purgatório...
Quais os que tombam,
em crimes exaustos,
quais os que sobem,
purificados?

Um dos romances mais significativos, o XXIV, relaciona o ato da confecção da bandeira dos inconfidentes com todo o movimento que eles preparavam em Ouro Preto:

(...)
Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
uns sugerem, uns recusam,
uns ouvem, uns aconselham.
Se a derrama for lançada,
há levante, com certeza.
Corre-se por essas ruas?
Corta-se alguma cabeça?
Do cimo de alguma escada,
profere-se alguma arenga?
Que bandeira se desdobra?
Com que figura ou legenda?
Coisas da Maçonaria,
do Paganismo ou da Igreja?
A Santíssima Trindade?
Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
“Escreva-me aquela letra
do versinho de Virgílio...”
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
“Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam...”
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja).
Através de grossas portas,
sentem-se luzes acesas,
— e há indagações minuciosas
dentro das casas fronteiras.
“Que estão fazendo, tão tarde?
Que escrevem, conversam, pensam?
Mostram livros proibidos?
Lêem notícias nas gazetas?
Terão recebido cartas
de potências estrangeiras?”
(Antiguidades de Nîmes
em Vila Rica suspensas!

Cavalo de La Fayette
saltando vastas fronteiras!
Ó vitórias, festas, flores
das lutas da independência!
Liberdade – essa palavra,
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:
murmura, imagina, inventa.
Não fica bandeira escrita,

mas fica escrita a sentença.